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O que se aprende em PNL não está na ementa

Por Victor Reis · 7 min de leitura

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Foto: Anna Shvets · Pexels

"Você, você pode me pôr só para eu assistir? Porque talvez eu não consiga dar atenção cem por cento para participar."

Ela pediu isso numa terça, no meio da explicação do exercício de calibragem.

Eu respondi o que dava para responder: "Dá para fazer em três pessoas tranquilamente. E aí eu vou colocar em trio, porque um vai contar a história e os outros dois vai analisar."

O exercício mudou de forma por causa de uma pessoa que tinha o dia ocupado. Quem procura saber o que se aprende em PNL quase sempre recebe uma lista. Eu prefiro contar o que veio depois daquele pedido.

A ementa é a parte fácil

Rapport, submodalidades, metamodelo, linguagem ericksoniana. A lista é verdadeira, está publicada em dez lugares e eu ensino tudo aquilo mesmo.

Ela é o índice do livro. Dá para decorar um índice numa tarde e continuar exatamente a mesma pessoa na conversa de segunda de manhã.

Na aula eu falo isso com todas as letras: "Eu me preocupo mais com a aplicação do que vocês saberem dos termos técnicos."

O que a pessoa leva embora aparece melhor numa cena do que numa definição. Por isso eu vou te dar a cena.

Um conta, dois observam, ninguém anota

A dinâmica é simples de descrever. Cinco a seis minutos por pessoa. Um conta uma história qualquer, da vida dele, e os outros dois só olham.

A primeira instrução é a que mais incomoda: ninguém anota durante.

"Não faz isso, vai atrapalhar o processo. Vocês já entenderam o que é para fazer, então faz de forma livre."

Sempre tem alguém que precisa do caderno para se sentir seguro. Só que o caderno puxa o olho para o papel, e o que a gente está treinando acontece no rosto da pessoa, não na folha.

Eu aviso antes de soltar a turma: "Não é para ser perfeito, nem vai ser, porque são muitos padrões para pegar ao mesmo tempo. O que a gente precisa fazer é começar a treinar."

Passados os minutos, cada um volta e conta o que viu. É aí que a aula acontece de verdade.

Você se descobre pela boca de um estranho

Naquele dia, três pessoas falaram.

O Rodrigo tinha observado duas colegas. Sobre a primeira, disse que ela usa bastante o rosto quando fala, e que olha sempre para o mesmo lado quando está contando alguma coisa.

Depois ele freou sozinho: "Eu não posso afirmar isso porque eu não me lembro de conversando com ela pela frente, mas talvez por causa da tela."

Essa frase vale o exercício inteiro. Ele viu uma coisa, quis concluir, e segurou a conclusão porque percebeu que podia ser só o enquadramento da câmera.

A outra colega do trio dele tinha parado o carro no meio do caminho para entrar na aula, e ficou com as mãos perto do rosto o tempo todo.

A Camila fez o inverso: calibrou quem estava calibrando ela.

"Quando ele conta algo mais tenso dele, ele fica olhando mais pros lados assim, ele fala mais rápido também." E, logo depois: "Quando ele fala algo que uma experiência, e uma parte boa, ele fica mais calmo, ele sorri mais também."

Ninguém pediu para ela observar o observador. Ela fez porque, depois que começa, fica difícil desligar.

A terceira pessoa a falar trouxe o achado que calou a turma. Ela tinha reparado num sinal que aparecia no rosto de um colega enquanto ele falava.

E, contando aquilo em voz alta, percebeu que o próprio rosto dela fazia a mesma coisa.

A turma conferiu ali, ao vivo, na câmera. Ela descobriu em público um detalhe de si mesma que o espelho nunca tinha mostrado.

Eu fechei a rodada com a frase que resume a aula inteira: "Vocês trazem o pouco do fato e muito do significado."

Foque no detalhe do comportamento mais do que no significado que ele carrega.

Quem só assiste aprende o nome das coisas

Volto ao pedido do começo, porque ele é a dúvida de quem está lendo isto agora. Dá para assistir? Dá. A gravação fica disponível, e tem semana em que a vida não deixa outra opção.

Tem aluno que entra e sai da aula várias vezes porque está dentro de um cliente e precisa resolver alguma coisa no meio. Acontece, e acontece com gente que leva a formação a sério.

Só que assistir e participar entregam coisas diferentes. Quem assiste sai sabendo o que é calibragem, e sabe explicar bonito numa mesa de bar.

Quem participa sai com uma informação que não estava em material nenhum: o que a própria cara dela faz quando ela está tensa, e o que ela concluiu sobre alguém naquele dia sem ter visto nada que sustentasse.

É por isso que a aula ao vivo não vira vídeo com gente assistindo. Vídeo nenhum muda de dupla para trio porque a sua terça apertou.

Se a sua dúvida é entre os dois formatos, eu comparei os dois em formação em PNL presencial ou online.

Quando o problema é a semana, e não o conteúdo, conte à equipe como a sua costuma ser.

Falar com a equipe

O que se aprende em PNL é consciência

Você já calibra. Faz isso desde criança, quando aprendeu a saber pelo barulho da porta se dava para pedir alguma coisa naquele dia.

O que falta é o automático virar escolha.

O aprendizado tem quatro fases conhecidas, da incompetência que não se percebe até a competência automática. Depois delas existe uma que eu chamo de a quinta fase: a do competente que piora devagar, porque faz bem feito há tanto tempo que parou de se perguntar se está fazendo bem feito. Quem lê gente o dia inteiro mora nessa fase e nem desconfia.

O vendedor que "sente" o cliente. A mãe que "sabe" o filho pela porta. O gestor que "percebe" quando a equipe está estranha.

Todos acertam bastante. E quando erram, erram feio, porque o palpite já saiu com cara de certeza.

A aula treina uma coisa só: separar o que você viu do que você concluiu, e segurar a segunda parte alguns segundos a mais. É pouco, e muda a conversa inteira.

Quem já passou por isso conhece a sensação de olhar para uma conversa antiga e ver o quanto ali era invenção sua. Eu contei outro pedaço dessa mesma aula em como ler as pessoas sem que elas percebam.

O olho que você não tem

Peça uma frase sobre você, em palavra de câmera

Escolha uma pessoa que convive com você, de casa ou do trabalho, e faça uma pergunta só: "o que eu faço quando estou contando uma coisa que me importa?"

Peça em palavra de câmera. O que a mão faz, o que a voz faz, o que o rosto faz.

Se vier adjetivo, "você fica empolgado", "você fica sério", devolva a pergunta: empolgado como? O que eu faço?

Depois vem a parte difícil: ouvir até o fim sem explicar nada. Agradeça e anote.

Você vai ouvir pelo menos uma coisa que nunca tinha ouvido. Ela estava visível para todo mundo ao seu redor, menos para você.

No Nível 1, a prática acontece dentro do encontro, com as pessoas que estão ali.

Ver a formação

A aula que muda de forma por causa de uma pessoa

Na formação, isso deixa de ser o acaso de uma terça. São no mínimo quarenta encontros online ao longo de doze meses, e em cada um a turma pratica com gente de verdade do outro lado da tela.

Os quatro dias presenciais entram na mesma contratação, e sou eu quem conduz. As gravações ficam com o aluno por quatro anos, a apostila chega impressa, e a dúvida que aparece depois da aula cai no grupo da turma, onde eu estou junto. Quem entra tem sete dias para desistir sem precisar explicar nada.

Isso existe porque perceber gente se aprende com pessoas dispostas a te dizer o que enxergaram em você, semana após semana, e com alguém corrigindo quando a sua leitura escorrega para o palpite.

Se a sua pergunta é como são os quatro dias presenciais, eu contei o fim do primeiro deles em como é um curso de PNL. Aqui eu quis contar a outra metade, a que acontece toda semana, pela tela.

A resposta curta, para quem chegou até aqui procurando o que se aprende em PNL: você aprende a desconfiar da sua própria certeza rápido o bastante para ainda dar tempo de perguntar.

O exercício daquele dia virou trio por causa de alguém que não sabia se ia conseguir participar. Gravação nenhuma faz isso.

E a pessoa que falou por último entrou na aula querendo aprender a ler os outros. Saiu sabendo uma coisa que o próprio rosto dela fazia, e que ninguém nunca tinha contado a ela.

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Ela disse que estava tudo bem e sorriu. Você desconfiou na hora e não soube o que fazer com aquilo. O problema quase nunca é perceber.

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A turma me leu inteiro no minuto em que eu parei de dar aula. Quem quer ler alguém sem ser notado quase sempre está olhando na hora errada.

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A demonstração que eu parei no meio de uma aula, porque o aluno ria em vez de sentir frustração, e o que ela ensina sobre por que uma ferramenta trava na sua mão.

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Numa dramatização do presencial, uma aluna entrou no papel de quem chega cobrando um documento atrasado. Eu não me defendi e não pedi calma: subi o meu tom para perto do dela.

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