Numa aula do Nível 2, o Victor pede uma coisa simples. Pensem em alguém que se faz de vítima, sem saber que faz isso. Pode ser um filho, um pai, uma mãe.
A sala fica em silêncio por um instante. Depois começa a escrever.
Quase todo mundo tem um nome na cabeça assim que a pergunta termina.
Ela acredita mesmo que é assim
A primeira coisa que a maioria presume é que a pessoa está fingindo. Que ela sabe o que faz e usa a dor para conseguir alguma coisa.
Às vezes é isso. Mas na maior parte das vezes não é.
Na visão que o Victor ensina em sala, a maioria dessas pessoas nem percebe que ocupa esse papel. Não fazem isso para manipular ninguém. Fazem porque creem, de verdade, que a vida é mesmo assim.
É como alguém convencido de que não conseguiu crescer na vida por causa dos problemas que teve, certo de que nunca ninguém a apoiou. Para quem vive essa história, não é uma desculpa pronta. É a explicação verdadeira da própria vida.
Existe uma segunda camada, mais rara: a pessoa que usa a própria dor sabendo o que está fazendo, para manter alguém perto. Mas a maioria dos casos do dia a dia é a primeira. Ninguém ali está mentindo para você. Está contando, com toda a sinceridade, a história que decidiu acreditar.
É por isso que o Victor separa duas palavras que parecem sinônimas. "Ser vítima é uma coisa, ser vitimista é outra", ele diz. "Vítima é aquela que passa pela dificuldade e supera a dificuldade. Vitimista é aquela que passa pela dificuldade e continua sendo vítima eternamente daquilo."
A diferença não está no que aconteceu. Dor real existe, e tem gente vivendo coisa grave agora, que precisa de ajuda de verdade, não de uma conversa sobre perspectiva. A diferença está em quanto tempo a história continua sendo contada depois que o fato já passou.
Vale separar também de outro padrão parecido: nem toda pessoa difícil se faz de vítima. Quando o travamento é outro, teimosia, provocação, resistência direta, o caminho muda, e é sobre usar a resistência da pessoa a seu favor.
Discutir quem tem razão não resolve
Diante disso, o primeiro impulso de quem convive é argumentar. Mostrar que não foi culpa de ninguém, que a outra pessoa também fez a parte dela, que o passado não foi bem assim.
Entra em detalhe, cita data, lembra quem disse o quê.
E perde.
Porque toda essa conversa continua presa no mesmo lugar onde a vítima já está: o que aconteceu, quem fez o quê, quem devia ter feito diferente. Você pode até ganhar o argumento. Convencer, com fatos, que a culpa não era inteiramente de quem ela aponta.
Isso raramente muda alguma coisa, porque a conversa nunca foi sobre precisão histórica.
Existe um conceito antigo na psicologia para essa divisão. Julian Rotter, em 1966, descreveu o que chamou de locus de controle: o quanto uma pessoa acredita que o resultado da própria vida depende dela mesma, ou de forças de fora, sorte, outras pessoas, circunstância.
Décadas de pesquisa depois, numa revisão de estudos sobre o tema no ambiente de trabalho, em 2006, na Journal of Organizational Behavior, Thomas Ng, Kelly Sorensen e Lillian Eby encontraram a mesma direção: quem mantém o olhar no que está fora do próprio alcance relata mais estresse. Quem volta para o que está ao seu alcance relata mais satisfação.
Discutir quem tem razão também é uma forma de ficar parado.
Só que parado dentro da versão do outro.
Você também entra no jogo dela
Tem um segundo custo, menos falado. Quando alguém se faz de vítima de forma inconsciente, perto de você, você muitas vezes se sente obrigado a ajudar, mesmo sem ter assumido essa obrigação em nenhum momento.
Você aparece. Resolve. Escuta de novo a mesma queixa, pela quinta, pela décima vez. E, sem perceber, começa a acreditar que essa é mesmo a sua função naquela relação.
Em sala, o Victor pede que cada aluno identifique, sem dizer em voz alta, quem são essas pessoas na própria vida e onde esse padrão aparece na rotina. A pergunta não é retórica. A resposta costuma vir rápido, porque a pessoa já sabe, só nunca tinha parado para nomear.
E tem uma marca que ajuda a reconhecer o padrão de fora: ele é generalista. Numa aula sobre metamodelo, o Victor chama atenção para isso, quem se faz de vítima tende a falar de um jeito extremamente generalista.
Nunca dá certo. Ninguém me ajuda. Sempre acontece comigo.
A queixa troca o episódio por um veredito sobre a vida inteira, e um veredito desses não se discute fato a fato. Só se aceita ou se recusa inteiro.
A pergunta que sai do impasse
Existe um termo que vale repetir aqui porque resolve metade do impasse: fato e significado. O fato é o que aconteceu, o que uma câmera teria filmado. O significado é a história que se conta sobre o fato, repetida até virar identidade.
O fato pode até ser verdadeiro. Alguém realmente não ajudou, realmente foi injusto numa situação específica. O significado, "ninguém nunca me ajuda", é outra coisa. É uma generalização que a pessoa construiu em cima do fato, e que passou a valer para sempre, em qualquer situação parecida.
Você não convence alguém a abandonar um significado discutindo o fato que o originou. Isso já aconteceu, e discutir não desfaz.
O que move a conversa para outro lugar é uma pergunta diferente, que não pede a ninguém que admita estar errado: o que você quer que aconteça agora?
O que está sob o seu controle
Essa pergunta não nasceu fora da PNL. Ela é quase igual a um dos critérios que o Victor ensina no Nível 1, dentro do que ele chama de boa formulação de objetivos: quais partes disso que você quer estão sob o seu controle, e quais não estão?
Imagine um aluno que, numa aula online, quer abrir uma empresa com um sócio específico, alguém que já decidiu não entrar.
O objetivo, formulado daquele jeito, depende de uma decisão que não é dele.
A saída seria trocar esse sócio por alguém com essas características, a parte que realmente está ao alcance dele.
Com quem se faz de vítima, o movimento é o mesmo, só que voltado para dentro da própria queixa. "Fulano nunca me ajudou" está fora do seu controle, porque já aconteceu e pertence à história de outra pessoa. "O que eu quero que aconteça a partir de agora" está dentro do seu controle, porque é uma decisão sua, hoje.
Na próxima vez que você pegar a si mesmo remoendo uma queixa antiga, ou ouvindo alguém remoer a dela, separe as duas coisas por escrito. Uma linha com o fato puro.
Uma segunda linha com o significado que você vem repetindo sobre ele. E uma terceira, só essa, respondida com cuidado: o que eu quero que aconteça agora, e o que disso depende de mim?
Não é para mandar a pergunta para a pessoa. É para você fazer essa separação primeiro, na sua própria cabeça, antes de abrir a boca. Muda o que você vai dizer, e muda, principalmente, o que você vai discutir.
Formule objetivos que dependem de você, não dos outros
Conhecer o Nível 1No Nível 1, a boa formulação de objetivos é um dos primeiros blocos trabalhados nas aulas online de terça, com o grupo e com acesso direto ao Victor para destravar os casos que não encaixam de primeira. Quem passa por ali não aprende a discutir melhor com quem se faz de vítima. Aprende a sair da discussão sem precisar ganhar ela, porque já está respondendo outra pergunta.
A próxima queixa da pessoa que você conhece vai continuar chegando. Ela não decide parar de contar a história do jeito que sempre contou.
Quem decide para onde vai a conversa, a cada vez que ela chega, é você.




