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Como ler as pessoas sem que elas percebam nada

Por Victor Reis · 7 min de leitura

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Foto: Berk Aktas · Pexels

Eu apertei o botão para dividir a turma em salas de grupo, e a plataforma travou.

"Opa, deu erro aqui, gente. Calma aí."

Fiquei em silêncio, mexendo no computador, procurando o que tinha dado errado. Era uma aula online sobre calibragem, e naquele instante eu não estava dando aula nenhuma. Estava resolvendo um problema meu na frente de todo mundo.

Foi aí que uma aluna começou a me descrever em voz alta.

Se você já procurou como ler as pessoas sem que elas percebam, o que aconteceu naquele minuto responde melhor do que qualquer lista de sinais.

A aula travou, e a turma leu o professor

Eu ainda estava de cabeça baixa quando perguntei:

"Que que você calibrou aí? Vai."

E ela foi:

"Quando você quando não dá, não dá alguma coisa certa, você fecha o rosto, você fica sério, aí fica com a mãozinha do lado aqui assim do do coisa e fica buscando assim o que que não deu certo."

Emendou:

"Mas aí e e o rosto assim, ó, e fica mexendo na barba também."

A sala caiu na risada. Eu ri junto e respondi: "Muito bom. Vocês já estão no clima já."

Ninguém tinha combinado aquilo. Não era exercício, não era demonstração preparada. A ferramenta falhou, eu saí do papel de professor por alguns segundos, e a turma aproveitou o vão.

Quando voltamos das salas, eu comentei uma coisa que vale para muito mais gente do que aquela turma: "Eu acho que é um dos pontos principais assim que antes você não faria se fosse numa conversa normal."

Quem conversa com você está se editando

Repare no que acontece quando alguém está falando com você.

A pessoa escolhe a palavra, mede o tom, ajeita o rosto. Ela está te respondendo, e tudo que ela faz naquele momento é, em alguma medida, feito para você ver.

Isso não é malícia. Todo mundo faz, o tempo inteiro, inclusive você. É o preço de estar sendo olhado.

Durante a conversa, você não vê a pessoa. Vê a resposta dela a você.

Por isso as promessas de ler alguém instantaneamente, no meio de um papo, entregam tão pouco. Elas mandam você observar justamente no momento em que a outra pessoa está mais arrumada.

Eu estava arrumado até o botão travar.

Você percebe a raiva melhor em quem já conhece

Quase sempre a dúvida por trás disso tudo é uma só: será que essa pessoa está irritada comigo?

Você sai de uma reunião com a sensação de que alguém ficou torto. Não tem certeza, não quer parecer inseguro, e faz a única coisa que parece segura: pergunta "tá tudo bem?".

A pessoa endireita o corpo, sorri e diz que está. E some o pouco que havia para ver.

Existe uma medida interessante sobre isso. Vassiki Chauhan e colegas, no Dartmouth College, testaram quinze estudantes de pós-graduação que dividiam o mesmo programa havia pelo menos um ano. Eles procuravam expressões em rostos de colegas e em rostos de desconhecidos parecidos com os colegas.

A raiva no rosto conhecido foi detectada 11% mais vezes e cerca de um décimo de segundo mais rápido. Nos sorrisos, conhecido e desconhecido deram na mesma.

Traduzindo para o corredor da sua empresa: o aviso de que alguém fechou a cara chega mais rápido e mais certeiro quando é uma cara que você já conhece. O sorriso não ganha nada com a convivência.

São quinze pessoas num laboratório, e não o Brasil inteiro. Mas o desenho diz uma coisa útil. O que melhora a leitura de irritação é o tanto que você conviveu com aquele rosto, não o truque que você aprendeu ontem.

Se o seu caso for o contrário, o sorriso que chega junto com a resposta e não convence, o problema muda de lugar.

O que as pessoas mostram quando ninguém está olhando.

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A leitura mora nos vãos da conversa

Toda conversa tem buracos. O café que ainda está saindo. O elevador que demora. O garçom que sumiu. O arquivo que alguém procura na tela compartilhada. O silêncio depois de uma pergunta difícil.

Nesses buracos a atenção não é sua, e a pessoa volta para o estado dela. Ombro cai, respiração muda, a mão vai para algum lugar de sempre.

Foi exatamente nisso que a turma me pegou.

Em sala eu costumo dizer que cada pessoa tem o próprio jeito de mostrar cada estado, e que esse jeito se repete. Quando você está irritado, você tem alguns jeitos que mostram que você está irritado, e a tendência é que esse padrão volte igual na próxima vez.

O vão é onde esse padrão aparece limpo, sem edição.

E tem uma vantagem que quase ninguém percebe: para olhar no vão, você não precisa olhar demais. Ninguém encara ninguém enquanto espera o elevador. Você só precisa estar ali com os olhos abertos no momento em que todo mundo relaxou.

Ninguém percebe quem ainda não concluiu nada.

O que denuncia uma pessoa observando não é o olhar. É a conclusão dita em voz alta.

Quando o assunto for a conversa inteira, e não um instante dela, o caminho é reparar no que muda enquanto a pessoa fala.

Descreva como uma câmera descreveria

Volte ao que a aluna falou.

Fecha o rosto. Fica sério. Mão do lado. Mexe na barba.

Nenhuma dessas quatro coisas é uma conclusão sobre mim. São quatro coisas que uma câmera teria filmado, e qualquer pessoa da sala poderia conferir na hora.

Em sala eu separo isso com duas palavras: fato e significado. Fato é o que a câmera filmaria. Significado é o que você acrescenta depois, sozinho, sem consultar ninguém.

Ela ficou no fato. Por isso a sala riu em vez de ficar sem graça, e por isso eu não me defendi de nada.

Se ela tivesse pulado para o significado, a frase teria saído assim: "você fica estressado quando as coisas não dão certo". Aí não é mais leitura, é veredito. E veredito a pessoa sente de longe.

Quando o significado entra cedo demais, a leitura vira palpite, e é aí que as pessoas erram feio ao tentar flagrar mentira.

O vão da próxima conversa

Procure uma coisa que mudou

Na próxima conversa, espere uma pausa que não seja sua. Alguém saiu para buscar alguma coisa, o telefone tocou, a tela travou, a mesa ficou em silêncio porque a comida chegou.

Escolha uma pessoa e procure uma coisa só: o que mudou nela desde que ela chegou.

Descreva por dentro, com palavra de câmera. O ombro subiu. A voz ficou mais baixa. A mão parou de mexer no copo.

Não conclua nada, não comente com ninguém e não pergunte nada. Guarde e siga a conversa.

Você vai reparar em duas coisas. A primeira é que aparece mais do que você esperava. A segunda é que ninguém ao redor percebeu você fazendo isso, porque não havia nada para perceber.

A calibragem tem aula própria na formação, com gente de verdade na frente.

Conhecer a formação

A turma inteira estava treinando naquele minuto

O bloco de calibragem do Nível 1 manda uma tarefa para a semana inteira: reparar em quem está ao seu redor e guardar como cada pessoa fica quando está feliz, quando está triste, quando está com raiva e quando está concentrada. É a mesma convivência que apareceu no estudo dos colegas de pós-graduação, só que de propósito e com os rostos que você escolher. Por isso o acompanhamento se estende por doze meses, e por isso os quatro dias presenciais ficam no meio do percurso, não na porta de entrada.

Volte comigo para a tela travada.

Aquela turma não estava me vigiando. Estava fazendo o dever de casa no primeiro minuto em que eu deixei de ser a atração.

E é isso que quase ninguém entende sobre como ler as pessoas sem que elas percebam: a discrição não está no jeito de olhar. Está na hora de olhar, e em segurar a conclusão mais tempo do que você gostaria.

Eu só descobri que estava sendo lido quando a sala riu.

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A demonstração que eu parei no meio de uma aula, porque o aluno ria em vez de sentir frustração, e o que ela ensina sobre por que uma ferramenta trava na sua mão.

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