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Como ser um bom ouvinte sem ensaiar a resposta

Por Victor Reis · 6 min de leitura

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Foto: Damian Santos · Pexels

Você está numa conversa que importa. A pessoa fala, e você escuta, ou acha que escuta. Porque enquanto ela ainda está na segunda frase, uma parte sua já foi embora: está lá na frente, testando como vai responder.

Numa formação de PNL, no meio de um exercício de pergunta e ressignificação, uma aluna descreveu exatamente isso:

"Eu fico pensando, pensando na pergunta, e aí eu não presto atenção no contexto. E aí, obviamente, se perde para fazer a próxima pergunta. E se perde mais ainda na ressignificação e na metáfora."

Bom ouvinte não é quem fica calado. Bom ouvinte é quem para de montar a próxima frase enquanto o outro ainda fala a primeira.

Se você quer saber como ser um bom ouvinte, comece por aqui: a questão não está em segurar a vontade de falar. Está em onde a sua atenção mora enquanto a outra pessoa ainda está na frase dela.

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Como ser um bom ouvinte: não é ficar calado

A ideia comum de bom ouvinte é feita de silêncio: não interromper, deixar o outro terminar, balançar a cabeça no momento certo. Isso ajuda, mas não é o centro da coisa. Dá pra ficar calado por fora e, ainda assim, estar em outro lugar por dentro.

Isso é diferente de ler o que a pessoa não diz, que é um passo depois desse. E é diferente de escolher a pergunta certa, que também vem depois. Aqui o problema é anterior aos dois: a pessoa ainda está falando, e uma parte de quem deveria ouvir já foi embora, cuidando da própria fala.

A sua cabeça já está respondendo

Existe um motivo pra isso, e não é falta de interesse na pessoa.

Pesquisadores que estudam esse efeito descobriram, em experimento com universitários, que quem está prestes a falar grava pior o que ouviu nos segundos imediatamente antes da própria vez. Não é esquecimento depois. É informação que nunca chegou a ser gravada, porque a atenção, naquele instante, já estava ocupada montando a fala seguinte.

Pense numa sala de espera de atendimento, quando você sabe que é o próximo a ser chamado. A pessoa do lado ainda está contando o problema dela pro atendente, mas boa parte da sua cabeça já ensaiou a sua fala.

Quando chega a sua vez, você percebe que não prestou atenção em quase nada do que ela disse, mesmo estando a um metro de distância. Uma conversa comum funciona pelo mesmo circuito: quando você sabe que vai falar depois, uma parte da sua atenção sai da sala antes de você.

O mais interessante veio depois. Quando avisaram as pessoas, ANTES de começar, pra prestarem atenção especial no que vinha antes da própria vez, o problema quase desapareceu.

Quem sabe que precisa escutar, escuta. A memória não falhava por fraqueza, falhava porque ninguém tinha avisado onde ela ia precisar estar.

Victor vê essa mesma cena toda vez que começa uma turma. Depois de ouvir a fala da aluna, ele respondeu assim:

"Essa é uma habilidade que vem com o tempo também. Mas o que você está falando é cem por cento real. E hoje, até hoje, todo mundo que eu vi no início dos treinamentos, eles vão passar por esse processo. Eles vão pensar muito mais na pergunta do que em ouvir a outra pessoa. E aí vem o processo de estar atento, e as perguntas começam a ficar mais elaboradas de uma forma mais simples."

Não é falha de caráter, nem de atenção em geral: é um hábito previsível e comum sobre onde a atenção vai quando alguém sabe que vai precisar falar depois.

O que se perde enquanto você ensaia

Enquanto você ensaia, a pessoa continua falando. E o que ela diz nessa hora costuma ser o que mais importa: o detalhe que só solta quando já relaxou, a palavra escolhida com cuidado, a pausa antes da parte difícil.

Você perde isso e nem percebe, porque na sua cabeça a conversa seguiu perfeita. A resposta que você dá nasce da pergunta que você ensaiou, não do que a pessoa de fato falou. Ela sente a diferença, mesmo sem saber nomear: uma conversa em que ela fala, você responde, e ninguém de fato ouviu.

Imagine um amigo contando que a semana foi difícil. No meio da frase dele, você já decidiu o conselho que vai dar. Ele termina de falar, você entrega o conselho, certinho e bem-intencionado.

Ele agradece, mas alguma coisa não fecha: o conselho respondia à ideia geral, não à parte que ele tentou contar baixinho, no meio da fala, sobre o que realmente pesava. Ele não vai te corrigir. Só vai contar menos, na próxima vez.

Com o tempo isso cobra um preço maior do que uma resposta torta. A pessoa aprende, sem dizer em voz alta, que falar com você é dar informação pra alguém que já decidiu o que vai dizer. E ela passa a contar cada vez menos.

O padrão não morre na força

Padrão não morre na força, morre na interrupção. O hábito de montar a próxima fala não desaparece porque você se esforça pra focar. Essa força, sozinha, costuma piorar as coisas: agora, além de ouvir a pessoa, você também está de olho em se prestar atenção, e sobra menos espaço ainda pra ela.

O que funciona é outro movimento. Perceber que você já está lá, montando a frase, e interromper o próprio movimento ali mesmo, no meio dele. É o mesmo princípio por trás de conectar antes de conduzir: dá pra estar presente fisicamente numa conversa e, ainda assim, estar ausente por dentro.

Volte para a última palavra dela

Pra fazer ainda hoje

A última palavra antes da sua

Numa conversa que importe hoje, tente uma coisa só. No instante em que perceber que já está montando a sua frase enquanto a pessoa ainda fala, pare. Não termine o pensamento. Repita pra você mesmo, em silêncio, a última palavra ou a última frase que ela disse, antes de deixar vir qualquer coisa sua.

Parece pouco. Não é pouco: isso puxa a atenção de volta pra fora, pra pessoa, no exato instante em que ela estava escapando pra dentro. Faça isso uma vez hoje, numa conversa só. Depois repare no que muda na resposta que vem.

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Ouça até o fim, não até a sua vez

No Nível 1, a calibragem e a escuta de verdade entram desde as primeiras aulas, ao vivo, toda terça, com espaço pra trazer uma conversa real da sua semana e ver, ali mesmo, o que muda quando a atenção volta pra pessoa. É gente de várias partes do país, numa turma pequena, treinando isso junto.

Ser um bom ouvinte não é um dom que alguns têm e outros não.

É notar, de novo e de novo, que você saiu, e voltar.

A próxima pergunta espera. A pessoa na sua frente, não.

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