Ela disse que estava tudo bem. Sorriu, inclusive.
Você aceitou a resposta, porque a resposta veio com sorriso. Foi dormir com aquilo atravessado e descobriu depois que não estava tudo bem havia semanas.
Quem procura a diferença entre sorriso falso e sorriso verdadeiro quer uma régua. Um detalhe que apareça sempre, num rosto e em qualquer outro, e que resolva a dúvida em meio segundo.
Essa régua existe. É famosa, é fácil de guardar, e é aí que mora o problema.
O sorriso falso tem um sinal famoso
O que você viu naquela porta tem nome. Chama incongruência: as palavras dizem uma coisa e o resto do corpo diz que não.
Congruência é o contrário. A imagem que eu uso em aula para explicar isso é a do salto ornamental em dupla, dois atletas girando ao mesmo tempo, entrando na água ao mesmo tempo. Tudo alinhado, tudo afinado.
No sorriso, o desencontro aparece rápido. Numa aula online eu mostrei isso com o rosto mesmo:
"Uma pessoa vai lá e ela tá aqui para você e ela vai dar um sorriso e ela faz assim, ó. E você olha e você fala assim: cara, que sorriso falso. Porém, se a pessoa dá aquele sorriso aqui que aí o olho movimenta e tudo mais, aí você fala: cara, esse sorriso aqui tá mais congruente."
Está aí a régua que o mundo inteiro repete. Sorriso de verdade mexe o olho. Sorriso de compromisso para na boca.
Faz sentido, é fácil de lembrar e é o primeiro resultado de quase toda busca sobre o assunto. Só que alguém resolveu medir.
O olho aparece nos dois sorrisos
Jeffrey Girard e colegas, na Universidade Carnegie Mellon, gravaram o rosto de 136 voluntários enquanto eles passavam por tarefas feitas para provocar diversão, vergonha, medo e dor. Depois perguntaram a cada um o que tinha sentido, e cruzaram as respostas com os 751 sorrisos que apareceram no caminho.
O olho contraído apareceu em 90% dos sorrisos em que a pessoa relatou estar sentindo emoção positiva. E apareceu em 80% dos sorrisos em que ela relatou não estar sentindo nada disso.
Traduzindo para a mesa do almoço de domingo: de cada dez sorrisos com alegria de verdade por trás, nove vêm com o olho. De cada dez sorrisos sem alegria nenhuma por trás, oito vêm com o olho também.
Como régua para você apostar uma relação, isso separa muito pouco. A conclusão dos próprios pesquisadores foi que o sinal sozinho não conta o que a pessoa está sentindo, e que depende do contexto em que ele aconteceu.
O detalhe cruel: o sinal famoso funciona bem o bastante para você confiar nele, e erra o bastante para você se machucar.
O padrão é de cada um, nunca de todos
Em sala eu insisto num ponto que parece pequeno e decide tudo. Cada pessoa tem o conjunto de sinais dela para cada estado, e esse conjunto se repete.
O que muda de uma pessoa para outra não é a emoção, é o jeito como ela aparece no corpo. Tem gente que fecha a mão quando está tensa. Tem gente que enrijece o ombro. Tem gente que some com a voz e mantém o rosto intacto do começo ao fim.
Tem uma armadilha que eu levanto em aula: às vezes a pessoa está sem nenhuma tensão no corpo porque acabou de sair de uma massagem. Nenhuma lista da internet tem essa linha.
O importante é a gente ter essa visão. Qual visão? Não generalize.
É por isso que este texto acaba em outro lugar que não o de dois artigos vizinhos daqui. Se a sua dúvida for se a pessoa está mentindo, o problema muda de lugar: lá ele está na conclusão que você acrescenta ao que viu. Se a dúvida for a conversa inteira, o assunto é panorâmico. Aqui a pergunta é menor e mais teimosa: este sorriso, desta pessoa, agora.
O sorriso é um sinal entre muitos. Na formação, você treina a ler todos eles.
Conhecer a formaçãoVocê já percebe, só percebe tarde
Repare numa coisa. Você não precisou de régua nenhuma para desconfiar naquela porta. Você desconfiou na hora.
O custo do tema não está em deixar de perceber. Está em perceber e deixar passar.
Em sala isso sai assim:
"Você tá bem? Você tá feliz? Ela vai falar: tô, mas eu já calibrei todo o rosto dela e o rosto dela fala: não."
Aí chega o pensamento de sempre: eu não tenho jeito para isso.
Você já leu a sua mãe no telefone pela primeira sílaba do alô. Já soube que o seu chefe ia recusar antes de ele abrir a boca. Já entrou numa casa e sentiu que tinha acabado uma discussão ali, sem ninguém dizer uma palavra.
Você já faz isso. A questão é o quão consciente nós fazemos isso a ponto de perceber no momento exato o que é bom ou ruim.
A palavra que carrega o peso é momento. Você percebe, só que percebe sem nome e sem tempo de fazer nada, e a conversa passa por cima. Duas horas depois, no carro, a frase chega inteira: tinha alguma coisa errada.
Aí já não dá mais para perguntar.
Confrontar fecha a pessoa
Agora imagine que desta vez você percebeu na hora. O que você faz com isso?
O erro mais comum é também o mais tentador: dizer o que você viu. "Pode falar, o seu corpo tá dizendo outra coisa."
Em sala eu falo isso com todas as letras. Quando você percebe incongruência, não é confrontar dizendo, ah, seu corpo diz outra coisa. Isso fecha geralmente a pessoa.
E fecha mesmo. Ela se defende, ajusta o rosto, escolhe melhor as palavras, e você perde o pouco que estava vendo.
O caminho é uma frase que eu repito em toda turma: primeiro conecta, depois conduz. Conectar é chegar onde a pessoa está, no ritmo dela e no assunto dela, antes de tentar levar ela para qualquer lugar.
Na prática, o que muda é o tipo da próxima frase. No lugar da acusação, uma pergunta que não cobra resposta. "Fica mais um pouco?" "Como foi o dia hoje?" Você não está atrás de uma confissão. Está abrindo espaço para a coisa aparecer sozinha, que é do único jeito que ela aparece.
Quem atende gente irritada faz isso o dia inteiro, e o jeito de acompanhar a energia do outro antes de pedir qualquer coisa funciona igual dentro de casa.
Guarde um sorriso de verdade antes de precisar dele
Escolha uma pessoa que você vê todo dia. Hoje, procure uma coisa só: o sorriso dela quando ninguém pediu educação nenhuma. Quando ela ri de alguma coisa na tela do celular, sozinha, sem plateia.
Repare no rosto inteiro naquele instante. Três segundos bastam. Não anote, não analise e não conte para ela o que você está fazendo.
Pronto, você guardou a referência.
Da próxima vez que essa pessoa sorrir dizendo que está tudo bem, você não vai comparar o sorriso dela com uma lista da internet. Vai comparar com ela mesma, que é a comparação que você já faz bem desde criança, sem nunca ter estudado nada.
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Ver o pilar ComunicaçãoA conversa continua depois que você percebe
Na formação em PNL, a calibragem tem aula própria, e a prática acontece com gente de verdade na frente: uma pessoa conta uma história, as outras observam, e depois cada uma diz o que viu, com correção na hora. São doze meses de acompanhamento, com aulas online ao vivo às terças e um presencial de quatro dias que eu conduzo, mais um grupo em que o aluno fala direto comigo. O que se treina ali é o olho que compara, não a memória de uma lista de sinais.
Volte para a porta do começo do texto.
Você viu o sorriso, sentiu o desencontro e engoliu a resposta, porque não sabia o que fazer com o que tinha acabado de ver.
A diferença entre sorriso falso e sorriso verdadeiro deixa de ser charada no dia em que você para de procurar o sinal certo e começa a procurar a pessoa.
Ela estava ali o tempo todo, na porta, esperando uma pergunta no lugar de um aceno.
Você não precisa descobrir se o sorriso era falso. Precisa descobrir o que ainda não foi dito.




