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Me sinto uma fraude: quando o elogio não entra

Por Victor Reis · 6 min de leitura

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Foto: https://kaboompics.com/ · Pexels

Você entrega um trabalho e ele fica bom. Alguém lê, usa, recebe, e devolve um elogio de verdade, sem segunda intenção. Você sorri, agradece, e por dentro já está descontando.

"Foi sorte." "Foi fácil, esse cliente." "Qualquer um fazia isso."

A frase que sobra depois não fala do trabalho, fala de você: eu me sinto uma fraude, mesmo quando o resultado está ali, pronto, do seu próprio punho.

Repare numa coisa. Você consegue elogiar um colega pelo mesmo tipo de entrega e aceitar na hora, sem desconto nenhum. Ele fez bem, ponto final. Com você, a mesma informação não para no trabalho. Ela sobe.

A pergunta que interessa é só esta: foi isso que você fez, ou é isso que você é?

A crença que não acompanha a capacidade se trabalha de perto, na Formação em PNL

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Você mede o outro pelo que ele fez

Quando alguém da sua equipe entrega um relatório sem erro, você julga o relatório. Ele fez isso bem, hoje, com esse material. Comportamento.

Quando um amigo resolve uma reclamação difícil de cliente sem perder a cabeça, você aplaude o que ele fez naquela ligação. Isso não vira, na sua cabeça, uma sentença sobre quem ele é para sempre.

É fácil aceitar o elogio do outro porque ele fica onde aconteceu: no que a pessoa fez, naquele dia, com aquele problema específico.

Pense num amigo que faz um jantar bom. Você come, elogia, e a frase que sai é sobre o jantar: ficou ótimo isso. Não vem à cabeça nenhuma conclusão sobre o caráter dele, sobre se ele merece ser chamado de bom cozinheiro para o resto da vida. A comida ficou boa naquela noite, com aqueles ingredientes. Ponto.

De você mesmo, a régua sobe para identidade

Com você, a mesma informação não para aí. Você entrega o relatório sem erro e a cabeça já pergunta outra coisa: será que eu sou mesmo capaz, ou só não erraram comigo hoje?

Numa aula de PNL, Victor recolhe da sala frases que os próprios alunos dizem sobre si mesmos: "eu sou ruim de comunicação, cara", "eu sou envergonhado, eu sou tímido". Nenhuma dessas frases fala de um episódio. Todas falam de uma identidade fechada.

Ninguém chega relatando um comportamento isolado quando o assunto é a própria pessoa. Vem sempre no "eu sou".

Por isso o elogio nunca é suficiente

Esse é o motivo de o elogio escorregar. Quem elogia está falando do comportamento: ficou bom isso que você fez. Quem escuta já julgou outra coisa, antes, sobre identidade: eu não sou capaz. As duas frases não combinam.

Então sobra a vigilância. Qualquer hora vão perceber. Qualquer dia alguém vai notar que esse resultado foi exceção, não regra. Todo mundo elogia, e você segue sem acreditar, porque o elogio chegou no nível errado para convencer a crença que está ali, intocada.

E tem um efeito colateral que ninguém avisa. Quem vive descontando o próprio elogio aprende, sem querer, a desconfiar também de quem elogia. "Ela só falou isso porque precisa de mim." "Ele disse que ficou bom porque é educado, não porque é verdade." A desconfiança que devia ficar na sua crença sobre você acaba sobrando para a pessoa que só estava sendo sincera.

A capacidade estava lá, só a crença não subiu

Numa aula online, Victor nomeia esse quadro específico: a pessoa tem capacidade, tem motivação, e mesmo assim não entra em ação, porque falta uma coisa só. "Já ouviu falar da síndrome do impostor? [...] só que o cara não acredita que vai dar certo, ele vai fazer, ele vai entrar em ação? Não."

O nome ficou popular porque descreve bem uma coisa concreta: a capacidade e o resultado existem, documentados, repetidos. A crença não acompanhou. E como a crença mora no nível de identidade, nenhuma quantidade de comportamento bom resolve ela por conta própria. Ela não é prova de nada. Opinião antiga não cai sozinha com um dado novo.

Em 1978, as psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes entrevistaram mais de 150 mulheres de alto desempenho, entre professoras e estudantes universitárias, e deram nome ao que descobriram: mulheres com currículo cheio, prêmio, aprovação de todo mundo, por dentro convencidas de que não eram capazes. O currículo é comportamento. A convicção é identidade. Um não muda o outro por conta própria.

Você mede o outro pelo que ele fez. Mede você pelo que acha que é.

Separe o fato da identidade, por escrito

Aqui entra uma distinção que eu uso bastante: fato e significado. Fato é o que uma câmera filmaria, sem opinião dentro. Significado é o que se empilha em cima do fato, depois. É o mesmo raciocínio de como saber se alguém está mentindo: o fato filma, o significado é a leitura que alguém acrescenta.

"Entreguei o relatório sem erro" é fato. "Então eu sou capaz" já é significado, e "não, só tive sorte" também é significado, do lado contrário. Os dois são construção sua, e o fato não muda com nenhum dos dois.

A diferença é que, com os outros, você quase sempre para no fato. Com você mesmo, nunca para.

O movimento é simples de descrever e incômodo de fazer. Na próxima vez que vier um elogio, ou a sensação de fraude sem elogio nenhum, escreva uma linha só com o fato, sem a palavra "sou": o que, exatamente, você fez. Não "eu sou boa nisso". "Entreguei X, no prazo, sem retrabalho." Releia em voz baixa e repare o que muda.

Nenhum "sou" sobrevive numa frase de câmera. É por isso que ela ajuda: tira a identidade do meio por um segundo e deixa só o que, de fato, aconteceu.

Isso se desfaz de perto, não sozinho

Separar fato de identidade numa frase ajuda no dia. Mas o hábito de desacreditar foi treinado ao longo de anos, cada vez que um resultado bom foi descontado e um resultado ruim foi usado como prova. Ele não se desfaz com um exercício único.

Na Formação em PNL, o acompanhamento de 12 meses existe por isso: não é uma frase que se escreve uma vez, é um padrão que se examina de novo a cada encontro, com alguém de fora olhando para o que a crença esconde de você mesmo. Como identificar crenças limitantes que travam já começa parecido, examinando a frase antes de tentar mudar ela.

A diferença entre elogiar bem o outro e aceitar um elogio sobre si também é estrutura, e está em como elogiar alguém: o fato convence sempre mais do que a opinião, inclusive quando quem precisa se convencer é você.

Da próxima vez que alguém disser que você fez um bom trabalho, não discuta a frase dele. Escreva a sua, em fato.

O trabalho ficou pronto do mesmo jeito. Quem decidiu que isso não provava nada foi você.

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