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Meu sonho é grande demais? O prazo é que não cabe

Por Victor Reis · 6 min de leitura

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Foto: Jan van der Wolf · Pexels

Eu perguntei o que ela queria da vida, e ela me respondeu com um prédio.

A gente estava no carro, indo para uma palestra. Ela contou que queria levantar um lugar que fosse, nas palavras dela, "o berço de várias empresas". Achei bonito e falei isso na hora.

Aí veio a pergunta que eu sempre faço depois do elogio: em quanto tempo?

Um ano.

Se você já pensou "meu sonho é grande demais", é bem provável que ninguém tenha feito essa segunda pergunta com você.

Eu elogiei o sonho antes de perguntar o prazo

Eu não estava ali para desanimar ninguém, e isso importa mais do que parece.

Em aula eu falo exatamente assim: "quando você olha para isso, pô, é super bonito. Você não tá lá para puxar o tapete da pessoa, mas é não é realizável, não é viável."

São duas coisas diferentes, e a maioria das pessoas só conhece uma. Puxar o tapete é dizer para alguém que ela não dá conta. Refazer a conta é perguntar em quanto tempo ela pretende dar.

O sonho dela continuou inteiro depois da minha pergunta. O que ficou balançando na volta foi o "um ano".

Seu sonho não é grande demais. A data é.

Prazo curto tem um efeito específico: a frustração chega antes do primeiro resultado.

E quando isso se repete algumas vezes, a pessoa para de fazer uma coisa que ninguém enxerga de fora. Uma aluna descreveu isso melhor do que eu conseguiria: "Eu me movo para não ficar frustrada e às vezes não crio metas ou objetivos para não correr o risco de de ficar frustrada."

Leia devagar. Ela continua querendo o que quer. Só parou de escrever no papel, porque escrever virou sinônimo de levar mais um tombo.

Esse é o preço alto e silencioso da data errada. Ninguém percebe quando alguém deixa de criar um objetivo, nem a própria pessoa.

Você acerta o prazo dos outros e erra o seu

Um aluno meu resumiu o problema inteiro sem querer: "Eu tenho facilidade enorme de verificar o que é que o outro pode melhorar. Quando eu vejo alguma coisa assim, já passa na minha cabeça, pois seria massa para uma pessoa e tal. Só que para colocar em mim, eu tenho uma certa dificuldade de visualizar isso e de me de fazer essa autoanálise."

Isso tem menos a ver com inteligência e mais com o lugar de onde a pessoa está olhando.

Roger Buehler, da Universidade Simon Fraser, estudou isso com dois colegas em 1994 e chegou a uma conclusão incômoda: as pessoas erram o próprio prazo e acertam o prazo dos outros.

Quando o prazo é do seu amigo, a sua conta não sai otimista. Sobre você, ela sai limpa, como se a vida fosse cooperar todos os dias até o prazo final.

Por isso a frase "meu sonho é grande demais" quase sempre aparece depois do tombo. Ela é a explicação que sobra quando a data venceu e o resultado não chegou.

Do primeiro degrau ninguém enxerga o vigésimo

Eu uso uma imagem em sala para isso, e ela resolve quase tudo.

Imagine uma escada de cem degraus. A pessoa está no primeiro e olha direto para o centésimo. Nas minhas palavras: "ela tá olhando o centésimo degrau, você tem que trazer ela pro vigésimo degrau, porque senão ela vai se frustrar no meio do processo."

O centésimo degrau é vontade. O vigésimo é endereço.

Endereço, não vontade é o jeito que eu tenho de separar as duas coisas. Vontade diz o que você quer sentir um dia. Endereço diz o que você vai fazer, com o que você tem na mão, num prazo que a sua vida aceita assinar.

Repare no que eu não fiz com a moça do carro. Não tirei um andar do prédio dela.

A regra é essa, e ela vale para qualquer objetivo grande: em vez de derrubar o objetivo, alonga-se o prazo. E o degrau intermediário existe por um motivo bem específico, que é entregar prova de caminho antes que a frustração apareça.

Se a trava não estiver no prazo, e sim no jeito como você escreveu o pedido, o trabalho é outro: como definir metas que você cumpre.

O sonho pode ficar do tamanho que está. Quem precisa caber na sua vida de hoje é a data.

O objetivo que você já carrega entra na aula como material de trabalho, com os recursos que você tem hoje em cima da mesa.

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Dois recomeços não têm o mesmo prazo

Aqui aparece a objeção mais comum de todas, quase sempre em forma de desânimo: isso é coisa de quem já tem estrutura.

Pense em duas pessoas com exatamente o mesmo objetivo escrito no papel. Uma cria três filhos sozinha. A outra mora só e trabalha seis horas por dia.

Nenhuma das duas precisa trocar de objetivo. O que não dá para ser igual é o prazo, e seria mentira dizer a elas que é.

Em aula eu insisto num ponto que quase ninguém considera na hora de sonhar: recurso não é só dinheiro, é também tempo e pessoas. Quem tem três horas livres por semana e quem tem vinte não estão olhando para a mesma escada, mesmo quando o degrau de chegada é idêntico.

Quem recomeça do zero sobe a mesma escada de todo mundo, só que com mais degraus pela frente. E tem uma vantagem que quase ninguém usa: pode escolher a própria data sem ninguém olhando.

Se você já começou e largou no meio outras vezes, vale olhar o que o objetivo estava cobrando de você enquanto durou: por que eu desisto quando começa a dar certo.

A conta de novo

Escreva a data que você nunca disse em voz alta

Comece pelo fim, que é a parte que ninguém escreve. Pegue um papel e anote o ano em que você combinou consigo mesmo de ter aquilo pronto.

Não o ano que você diria numa roda de conversa. Aquele que aparece quando você pensa no assunto sozinho, deitado, sem ninguém para impressionar.

Acima da data, escreva o sonho. Pode sair curto, pode sair mal escrito, ele não vai ser lido por ninguém.

Agora responda uma pergunta, a mesma que eu faço em sala: como isso ficaria mais realizável nos próximos um ou dois anos?

Escreva a resposta embaixo e repare no que aconteceu com o papel. O sonho continua do tamanho em que você o escreveu. Quem se mexeu foi a data, e mesmo assim alguma coisa no corpo afrouxa.

Textos sobre o que você quer, o que isso custa e em quanto tempo cabe.

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O sonho continua do mesmo tamanho

Na formação em PNL, o objetivo que o aluno já carrega entra na sala como material de trabalho. A gente confere três coisas antes de qualquer outra: os recursos que ele tem hoje, o ambiente em que ele vive e o prazo que ele deu sem pensar. Só depois se procura o degrau que cabe.

São aulas online ao vivo, às terças, mais quatro dias presenciais que eu conduzo, e um grupo em que o aluno fala direto comigo quando a data aperta no meio do caminho.

O sonho menor quase nunca é a saída.

O que costuma resolver é uma data que a sua vida de hoje consiga assinar, e um degrau intermediário que prove, antes da desistência, que a escada anda.

Quem chega até a frustração dizendo "meu sonho é grande demais" quase sempre está certo sobre o que sentiu e errado sobre o culpado.

O centésimo degrau continua onde estava. A pergunta é em que ano você combinou de chegar nele.

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