Victor tem um hábito estranho. Quando está estudando alguma coisa e quer garantir que vai usar aquilo durante a semana, ele troca a aliança de mão. Às vezes coloca uma pulseira, dessas que ele não tem costume de usar. Olha para o pulso, estranha o peso ali, e lembra: aquilo que estudei essa semana, eu preciso aplicar hoje.
Essa prática responde, à maneira dele, a uma pergunta comum: como não esquecer o que estudou sem virar escravo da releitura.
Tem gente que termina de estudar e fecha o caderno. Tem gente que termina de estudar e já procura, no mesmo dia, uma situação pequena para usar aquilo.
Nos dois casos, na hora, a sensação é igual: aprendi. A diferença só aparece depois, e demora pouco para aparecer.
Este texto fica fora da ordem entre entender e aplicar, e fora da calibragem na hora de usar uma técnica. Ele mira o que sobra, semanas depois, do que você estudou e nunca chegou a usar.
Reler não é a mesma coisa que guardar
Reler a apostila, assistir de novo a aula gravada, passar os olhos na anotação. Toda vez que você faz isso, alguma coisa acontece na sua cabeça que parece aprendizado: você reconhece o conteúdo. "Ah, isso eu sei." O problema é que reconhecer não é o mesmo que guardar, e guardar não é o mesmo que usar.
Reconhecer é fácil. O material está na sua frente, com a resposta embutida. Usar é diferente: você precisa puxar aquilo de dentro, sem o material na mão, numa situação que não avisou que ia chegar. É por isso que tanta gente sai de uma formação se sentindo cheia de conteúdo e, num mês qualquer depois, não consegue lembrar nem o nome do que estudou.
A quinta fase começa antes do hábito
Victor explica isso com uma ideia que ele mesmo acrescentou ao modelo clássico das fases do conhecimento, que vai do não sabe que não sabe até o automático. Ele chama de a quinta fase: o cérebro, para economizar energia, começa a cortar partes do comportamento que não estão sendo usadas. É por isso que até uma habilidade automática, se parar de ser praticada, perde pedaço.
Repare no que isso quer dizer para o que você só estudou, sem nunca ter chegado a usar. Se o cérebro corta o que já virou hábito e deixou de ser reforçado, ele corta com muito mais pressa o que nunca chegou a ser hábito, porque nunca teve uso nenhum puxando aquilo para dentro. Não existe economia de energia mais barata, para o cérebro, do que apagar uma informação que nunca foi usada uma vez.
O cérebro corta primeiro o que nunca foi usado, porque esse corte não custa nada.
O que você não toca essa semana já foi
Jeroen Dros, pesquisador da Universidade de Amsterdã orientado por Jaap Murre, repetiu em si mesmo, em 2015, o experimento clássico que Hermann Ebbinghaus fez consigo próprio em 1885 para estudar como a memória perde força. A queda maior aconteceu logo nas primeiras 24 horas. Depois disso, o esquecimento continuou, mais devagar, até o trigésimo primeiro dia, quando a medida de retenção ficou mais baixa do que em qualquer outro ponto do experimento.
Não é um número que valha para todo mundo, porque é um experimento feito em uma pessoa, repetindo outro feito em uma pessoa. Mas a forma da curva é a mesma há mais de cem anos: a maior parte da perda acontece logo no início, e o resto continua escorrendo nas semanas seguintes, não de uma vez. Esperar "ter mais tempo" para usar o que estudou é esperar a conta ficar pior, não igual.
Use a peça pequena antes de revisar
A saída passa por trocar a ordem, não por estudar com mais atenção nem por revisar com mais frequência. Hoje, a maioria das pessoas estuda e, quando sente que está esquecendo, revisa de novo o mesmo material. Isso resolve a sensação de "ainda sei", porque reconhecer de novo é fácil. Não resolve o esquecimento, porque o que falta não é reler, é usar.
A ordem que segura o conteúdo é esta: antes de abrir de novo a apostila, o vídeo salvo ou a anotação, usar uma peça pequena dela, uma vez, numa situação real.
Uma frase que você aprendeu, aplicada numa conversa de hoje. Uma pergunta nova, feita para alguém de verdade. Um jeito diferente de abrir um assunto difícil, testado com a pessoa mais fácil da sua lista.
Só depois disso, se quiser, revisar.
O lembrete fica fora da sua cabeça
Victor não confia na própria lembrança para lembrar de usar o que estudou. Por isso a pulseira, a aliança trocada de lado. O objeto incomum no corpo é o lembrete, não a cabeça.
Funciona porque tira da sua memória, que já está ocupada, a tarefa de lembrar que existe uma tarefa. Você escolhe um objeto que normalmente não usa, coloca ele em algum lugar visível, e decide que ele só sai quando você tiver usado, uma vez, a peça pequena do que estudou essa semana. Enquanto o objeto estiver lá, a tarefa continua pendente, e você não precisa confiar na vontade de lembrar.
Pegue a última coisa que você estudou e ainda não usou. Antes de reler qualquer material sobre ela, escolha um objeto que você não tem costume de usar e deixe ele visível, só para lembrar que a tarefa está aberta.
Durante o dia, procure uma situação real, pequena, e use essa peça uma vez. Depois, se quiser, revise o material.
Vai sentir a diferença entre reconhecer e guardar.
A Formação em PNL Nível 1 é desenhada para resolver exatamente isso: doze meses de acompanhamento, com o mesmo conteúdo revisitado em momentos diferentes da sua vida, e não empilhado numa aula só.
Conhecer a formaçãoVictor repete isso com a turma desde o começo do acompanhamento: a intenção é que cada pessoa veja o conteúdo da formação pelo menos três vezes, em fases diferentes da própria vida, porque é isso que faz o conteúdo pegar de verdade. Não é revisão por revisão. É o mesmo assunto encontrando você depois que você já usou alguma coisa dele, com uma pergunta diferente para fazer.
Se você já notou que trava entre estudar e aplicar, antes de qualquer outra coisa, vale ler tenho o curso mas não sei aplicar. E se já aplicou e não funcionou, o problema costuma estar em outro lugar, descrito em fiz a técnica e não funcionou. Mas isso é depois.
Primeiro, antes de reler qualquer coisa, use uma peça pequena dela. É essa a resposta inteira para como não esquecer o que estudou: não é vontade, nem memória boa, é usar antes de rever. O resto, sua cabeça guarda sozinha, porque agora tem alguma coisa de verdade para guardar.




