VICTOR REIS

Como se comunicar com clareza e objetividade na prática

Por Victor Reis · 6 min de leitura

Capa do artigo: Como se comunicar com clareza e objetividade na prática

Foto: Keira Burton · Pexels

Numa aula sobre metamodelo, um aluno soltou uma frase de três palavras: "ninguém me ajuda".

Eu poderia ter respondido com conselho. Poderia ter dito que ele precisava confiar mais nas pessoas, pedir do jeito certo, qualquer coisa assim.

Só que ele não tinha me contado nada ainda. Ele tinha me entregado um resumo.

Então eu perguntei: ninguém quem? Em qual contexto? Quem especificamente você gostaria que te ajudasse? O que essa pessoa faz ou deixa de fazer?

Quatro perguntas depois, o problema já não era "ninguém me ajuda". Era uma pessoa, uma situação e um pedido que nunca tinha sido feito em voz alta. Aquilo tinha solução. A frase de três palavras não tinha.

Quando a comunicação vem rasa, ela vem cheia de omissão.

Se você quer saber como se comunicar com clareza e objetividade, é por aqui que começa: parar de aceitar o resumo, o dos outros e o seu.

A clareza na fala é a primeira coisa que a gente treina na formação

Conhecer a Formação em PNL

Como se comunicar com clareza e objetividade: pare de completar a frase do outro

Toda vez que alguém fala, corta informação. É inevitável, ninguém descreve uma experiência inteira em palavras.

Na PNL a gente chama a fala que sai de estrutura de superfície. A experiência completa, com todos os detalhes, fica na estrutura profunda, dentro da pessoa.

O problema não é o corte. O problema é o que a sua cabeça faz com o buraco que sobrou: ela preenche sozinha, na velocidade do automático, com o que já esperava ouvir.

Duas pessoas saem da mesma conversa achando que falaram da mesma coisa. Cada uma montou um filme diferente na própria cabeça. É assim que nasce a maior parte das brigas que começam com "não foi isso que eu quis dizer".

O que acontece quando ninguém pergunta

Imagine uma cena que você provavelmente já viveu, de um lado ou do outro. Alguém chega e diz: "eu fiz tudo por você e olha como eu fiquei".

Repare no tamanho do buraco. Fez tudo o quê? Por escolha de quem? Esperando o quê em troca? E "olha como eu fiquei" significa exatamente o quê?

Quem ouve recebe uma carga emocional enorme e nenhuma informação útil. Aí faz a única coisa possível: preenche. Chuta um significado, se defende do significado que chutou, e a conversa vira briga sobre uma frase que nunca foi dita.

A pergunta que desarma isso é simples: "o que especificamente você fez?" e "como você ficou especificamente?"

A pergunta é um convite pra pessoa sair da dor vaga e chegar no ponto real da cobrança. Vago é terreno fértil pra discussão sem solução.

Quer saber onde a sua comunicação perde informação hoje? Fale com a equipe

Entrar em contato

Toda fala deixa buracos

Nas minhas turmas eu separo a omissão em tipos. Você não precisa decorar nome nenhum, precisa aprender a ouvir o que falta. Olha três deles:

  • Omissão simples: falta a informação básica. "Estou chateado." Chateado com o quê? "Precisamos melhorar." Melhorar o quê? A pergunta que devolve o dado é "o que especificamente?".
  • Falta de índice referencial: o sujeito some. "Eles disseram que está tudo errado." Quem disse? "Todos sabem disso." Quem sabe? Boa parte dos fantasmas de uma equipe mora nesse "eles".
  • Verbo inespecífico: a ação é ampla demais pra significar alguma coisa. "Ela resolveu o problema." Resolveu como? "Ele não me apoia." Não te apoia fazendo o quê, em que situação?

A omissão chega de mais jeitos do que esses três, e anda junto com a generalização, o "nunca" e o "todo mundo". Mas são esses três os que mais passam batido numa conversa comum, e reparar neles já muda a sua escuta.

Vale um aviso que eu repito em toda aula: metamodelo sem rapport vira irritação. Se você metralhar perguntas em cima de alguém que não sente conexão com você, o que a pessoa escuta não é interesse, é ataque.

Primeiro conecta. Depois pergunta.

O preço de conversar em cima de buraco

Buraco na fala custa dinheiro, prazo e relação.

Um estudo do Grammarly com o instituto Harris Poll, publicado em 2023, estimou que a comunicação ruim custa até 1,2 trilhão de dólares por ano às empresas americanas, algo perto de 12,5 mil dólares por funcionário.

Na mesma pesquisa, 84% dos líderes ouvidos disseram sentir os efeitos disso no dia a dia, com queda de produtividade, prazos perdidos e custo extra no topo da lista.

Repare que quase nada disso vem de gente mal-intencionada. Vem de frase vaga aceita sem pergunta:

  • Um pedido sem critério ("preciso disso rápido") vira retrabalho.
  • Uma devolutiva sem exemplo ("melhora sua postura") vira insegurança.
  • Uma cobrança sem referência ("todo mundo está reclamando") vira defesa.

Você não perde tempo perguntando. Você perde tempo quando não pergunta.

Peça com critério, escute o que falta

  • Escute a estrutura, não só o conteúdo. Enquanto a pessoa fala, repare no que ficou de fora. É isso que separa quem ouve de quem só espera a vez de responder.
  • Troque o "por quê" pelo "o quê" e pelo "como". "Por que você fez isso?" pede justificativa e ativa defesa. "O que aconteceu?" e "como foi?" pedem informação. No metamodelo, "por quê" é a pergunta que eu mais evito.
  • Pergunte uma coisa de cada vez. Três perguntas empilhadas viram interrogatório. Uma pergunta, silêncio, escuta.
  • Aplique em você primeiro. Antes de mandar aquela mensagem, releia e procure o buraco: o que a outra pessoa vai ter que adivinhar aqui? Preencha você, antes que ela preencha errado.
  • Peça com critério, não com adjetivo. "Faz um trabalho caprichado" não é pedido, é torcida. "Preciso do relatório com os três números da campanha, até quinta às 18h" é pedido.
Para a próxima frase vaga

Uma pergunta antes da resposta

Hoje, na primeira frase vaga que chegar até você ("isso me incomodou", "está tudo errado", "eles não colaboram"), segure a resposta que já estava pronta na sua boca. No lugar dela, faça uma pergunta só, com tom de curiosidade e não de auditoria: "te incomodou o quê, exatamente?".

Depois repare no que a pessoa respondeu que você não sabia. Quase sempre é um dado concreto, um nome, uma cena, e quase sempre ele muda o que você ia dizer em seguida. Era isso que estava dentro do buraco da frase, esperando alguém perguntar em vez de preencher.

Toda terça tem aula ao vivo na Turma Avançada. Os resumos ficam abertos no Spotify

Ouvir os resumos

Pergunte antes de preencher

Clareza não é falar mais. É falar com informação suficiente pra outra pessoa não precisar adivinhar.

E objetividade não é ser seco. É tirar do caminho tudo o que obriga o outro a completar a frase com o medo dele.

Você já sabe como se comunicar com clareza e objetividade: escute o que ficou de fora, faça uma pergunta específica, cheque se o filme que você montou é o mesmo que a pessoa está descrevendo.

Da próxima vez que uma frase vaga chegar até você, segure a resposta pronta e pergunte primeiro.

A frase vaga é do outro. O filme que preenche o buraco é seu.

Capa do artigo: Sorriso falso e sorriso verdadeiro: o olho engana
Comunicação

Sorriso falso e sorriso verdadeiro: o olho engana

Ela disse que estava tudo bem e sorriu. Você desconfiou na hora e não soube o que fazer com aquilo. O problema quase nunca é perceber.

Capa do artigo: O que se aprende em PNL não está na ementa
Comunicação

O que se aprende em PNL não está na ementa

Uma aluna pediu para só assistir, e o exercício da aula mudou de forma. Logo depois, três pessoas contaram o que tinham enxergado umas nas outras.

Capa do artigo: Como ler as pessoas sem que elas percebam nada
Comunicação

Como ler as pessoas sem que elas percebam nada

A turma me leu inteiro no minuto em que eu parei de dar aula. Quem quer ler alguém sem ser notado quase sempre está olhando na hora errada.

Capa do artigo: Fiz a técnica e não funcionou: o que faltou ver
Comunicação

Fiz a técnica e não funcionou: o que faltou ver

A demonstração que eu parei no meio de uma aula, porque o aluno ria em vez de sentir frustração, e o que ela ensina sobre por que uma ferramenta trava na sua mão.

Entrar em contato