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Como saber se um curso funcionou: escute o verbo

Por Victor Reis · 8 min de leitura

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Foto: Felicity Tai · Pexels

Começo da manhã do quarto dia. Sala cheia, café ainda quente na mesa do fundo, gente que dormiu pouco e não quer ir embora.

A turma estava contando o que tinha acontecido desde o primeiro dia. Um aluno falou uma frase curta. E eu parei a aula no meio.

Não parei pelo conteúdo da frase. Parei pelo tempo do verbo.

É a resposta mais seca que eu conheço para a pergunta de como saber se um curso funcionou: você não pergunta. Você escuta.

Ninguém anuncia que mudou. O verbo entrega antes.

Quer uma leitura de fora do que já mudou em você e do que ainda não mudou? Conte o seu momento à equipe.

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Como saber se um curso funcionou: pare de perguntar, comece a escutar

A pergunta de sempre tem um defeito.

Quando alguém pergunta "e aí, valeu a pena?" na noite do último dia, com a sala ainda quente e todo mundo se abraçando, essa pergunta não mede mudança. Mede humor.

E humor de fim de evento é a coisa mais fácil de produzir que existe. Música, luz baixa, história emocionante, abraço. Qualquer um faz.

Mudança é outra coisa. Mudança aparece na estrutura da fala, não na intensidade dela.

Existe pesquisa séria em cima disso. Um estudo assinado por Carrera e colegas, publicado em 2014 na revista científica Psicológica, comparou pessoas descrevendo a mesma situação no presente e no passado. Quem escreveu no passado produziu um texto mais abstrato, e tratou o que estava descrevendo como algo mais distante de si.

Ou seja: o tempo do verbo mostra onde a pessoa está em relação ao próprio problema.

Quem diz "eu sou estressado" está dentro. Quem diz "eu era estressado" já saiu e está olhando de fora.

Em Programação Neurolinguística isso tem nome: calibragem. É a habilidade de observar e interpretar o que a pessoa emite enquanto comunica, inclusive a escolha das palavras e a estrutura das frases dela.

O que ele dizia no primeiro dia, e o que ele dizia no quarto

Rodrigo tem empresa e tem equipe. Chegou no primeiro dia incomodado com ele mesmo, não com os outros. E o incômodo dele saiu assim, com essas palavras: "certas atitudes que eu analisava como erradas, mas eu não conseguia me corrigir".

Essa frase é a versão adulta de "por que eu sei o que fazer e não faço". A pessoa enxerga o próprio erro em tempo real e assiste a si mesma repetindo o erro assim mesmo.

Ele também falou "com um funcionário que às vezes eu não tenho muita paciência". E rematou: "Me senti muito imaturo na hora. No momento. Não precisava ficar bravo."

Repara nos verbos. Não tenho. Presente. É agora, é hoje, é quem eu sou.

Quarto dia de manhã, na mesma roda, o mesmo homem disse: "cara, eu era muito estressado". E logo depois: "cara, eu lidava de uma forma muito ruim".

Era. Lidava. Passado.

Foi aí que eu parei a aula. Falei para a turma, com ele na sala: é muito legal a mudança da estrutura de palavra dele. Porque ele começou a usar o passado para descrever a emoção dele. Eu não sei se ele percebeu isso. Mas quando ele chegou aqui no primeiro dia, ele falava tudo no presente. Agora no passado.

Ninguém aplaudiu. Ninguém chorou. Foi só uma observação seca, do tipo que você faz olhando um termômetro.

E é exatamente por isso que ela vale. Ele não estava me vendendo um resultado. Ele estava contando um caso e o verbo escorregou sozinho.

Eu mesmo falo em aula que, para mudar um comportamento que você carrega, às vezes demora meses e anos. O que se leva desse caso é o indicador, e não o relógio.

Por que a pessoa quase sempre é a última a perceber

Tem uma coisa curiosa na mudança de comportamento: quando ela pega, ela fica natural. E o que é natural ninguém nota.

Eu falo isso em aula quase toda semana. As pessoas mudam e não percebem, porque é tão natural que elas não notam. Aí, dois ou três meses depois, alguém chega e fala "cara, você mudou pra caramba". E a pessoa responde: mudei o quê?

Comigo foi assim também. Caiu uma crença que me travava havia anos e eu só fui perceber uns três meses depois: caraca, mudou muito.

Por isso autoavaliação é um instrumento ruim. A pessoa é péssima testemunha da própria transformação, e não por má-fé. É que o novo padrão já virou o normal dela.

Quem enxerga primeiro é quem escuta de fora. É o que a gente chama de calibragem, e eu destrinchei isso em como ler as pessoas sem virar adivinho.

Treinar o ouvido que percebe isso é o que a gente faz na formação.

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Quatro sinais que a pessoa não controla

Calibrar é perceber a mudança antes mesmo de ela ser dita, prestando atenção em quatro coisas que a pessoa não controla enquanto fala.

  • Tempo do verbo: presente coloca a pessoa dentro da experiência, passado coloca do lado de fora. "Eu travo em reunião" e "eu travava em reunião" descrevem o mesmo assunto e duas posições diferentes.
  • Operador modal: repare se a frase vem com "eu tenho que", "eu preciso", "eu deveria", ou com "eu quero" e "eu escolho". O primeiro grupo é obrigação empurrando por trás. O segundo é direção puxando pela frente.
  • Lugar do sujeito: "isso me tira do sério" põe o comando fora da pessoa. "Eu me irrito quando isso acontece" devolve o comando para ela. A segunda frase é de quem já assumiu a direção.
  • Congruência: a palavra e o corpo dizendo a mesma coisa. Quando a mudança não foi efetiva, não existe congruência nela: a boca fala uma coisa, o ombro fala outra.

Esses quatro sinais não são opinião. São escolhas que a gramática da pessoa faz sozinha, antes de ela decidir o que quer te mostrar. É a mesma família de mecanismo que eu descrevi em o verbo que já assume a verdade.

A euforia da sala não mede aprendizado

Quem compra treinamento para equipe e mede pela reação da sala está medindo a coisa errada.

Uma meta-análise publicada na revista Personnel Psychology, assinada por Alliger e colegas em 1997, juntou 34 estudos e 115 correlações para testar isso. O quanto a pessoa gostou do treinamento prevê o quanto ela aprendeu numa correlação média de 0,08. E quando os autores isolam a reação puramente afetiva, o quanto ela curtiu a experiência, o número cai para 0,02.

Traduzindo: aplauso e aprendizado são quase independentes um do outro. Os próprios autores concluem que a reação não serve de substituta para a avaliação de aprendizado.

E o que você paga por confiar no aplauso:

  • Você compra de novo o que deu emoção, e não o que deu comportamento novo.
  • Você descarta o que funcionou aos poucos, porque não gerou barulho na hora.
  • Você fica sem critério na hora de decidir o próximo investimento, e decide pelo que lembrou.
  • Você culpa a pessoa por "não ter aplicado", quando nunca definiu o que era aplicar.

Nada disso se resolve com mais entusiasmo. Se resolve com um indicador que não depende de quem está sendo medido.

Como medir mudança de comportamento

  • Escute a estrutura, não o conteúdo. O assunto da frase engana. A gramática dela não. Ouça o verbo, o operador modal, o sujeito.
  • Meça depois, não no calor do último dia. Emoção quente mede o evento. Fala fria mede o que ficou.
  • Não avise a pessoa. No instante em que ela sabe que está sendo medida, ela passa a produzir a resposta certa. O indicador bom é o que escapa.
  • Vá atrás do desencontro. Quando a fala é de mudança e o corpo é de antes, a mudança ainda não desceu. Isso é informação, não é fracasso.
  • Aceite que o relógio é individual. Um vira a chave em dias, outro em meses. Cobrar prazo igual para todo mundo é o jeito mais rápido de desistir de algo que estava funcionando.

E tem uma coisa que só a prática resolve: padrão antigo não morre por decisão. Ele morre por interrupção repetida, assunto que eu abri em quebrar o padrão automático.

Leitura de um verbo

O verbo de uma frase só

Escolha uma pessoa e um assunto que já incomoda há tempo. Pode ser você mesmo. Puxe uma fala espontânea com uma pergunta aberta, do tipo "como é que está aquilo?", e anote a frase que vier, literal, com a bagunça que tiver. Nada de "você melhorou?": pergunta fechada produz resposta educada.

Agora olhe só o verbo principal dessa frase. Presente ou passado? Não conclua nada hoje, só guarde o papel com a data. Zero planilha, e você já tem uma leitura que não depende de ninguém estar inspirado naquele dia.

Escute o verbo, não o aplauso

A pergunta que abre este texto tem resposta, e ela é chata de tão simples.

Você não descobre se um curso funcionou perguntando se a pessoa gostou. Você descobre ouvindo como ela descreve, hoje, o problema que a levou até lá. Se o problema mudou de tempo verbal, alguma coisa se moveu. Se continua no presente, o conteúdo entrou e o padrão ficou.

Rodrigo não me disse que tinha mudado. Ele provavelmente nem tinha reparado. Ele só contou um caso, e o verbo foi para o passado sozinho.

Escute o verbo. Anote a frase. Volte daqui a trinta dias.

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