Pense em duas lembranças ruins que você carrega. Uma ainda arde, quase como se tivesse sido ontem. A outra quase não pesa mais, mesmo tendo sido séria na época.
Se o peso dependesse só da gravidade do fato, a mais grave doeria mais. Quase nunca é assim.
Quem procura como esquecer uma lembrança ruim geralmente quer apagar o que aconteceu. Apagar não dá. Mas o peso de uma lembrança vem menos do fato e mais do jeito como a sua mente exibe aquela cena agora.
Exibição se ajusta.
A formação treina o trabalho com a estrutura do que você lembra, com prática e correção.
Conhecer a formaçãoLembrança do passado não se apaga, se ajusta
Quando você lembra de alguma coisa, a sua mente não abre um arquivo neutro. Ela monta a cena de novo, com um tamanho, uma distância, um brilho, um som.
A lembrança que arde costuma aparecer grande, perto, com a voz alta. A que já não pesa costuma estar pequena, longe, meio apagada.
O que aconteceu pode ter o mesmo tamanho. O jeito de exibir, não. É por isso que duas pessoas lembram o mesmo acontecimento com pesos tão diferentes: cada uma monta a própria exibição.
Na PNL, esses detalhes da exibição têm nome: submodalidades. Distância, tamanho, cor, volume, tom. São eles que decidem o peso.
Eu chamo esse conjunto de o painel: a exibição da lembrança se ajusta, o fato não. Você não reescreve o passado. Mexe em como ele aparece.
É também por isso que tentar esquecer à força costuma dar errado. Para lembrar de não pensar na cena, você precisa pensar nela, e cada tentativa vira mais uma exibição.
Cada tentativa de esquecer à força é mais uma sessão da mesma cena.
"Ficou mais suave"
Numa aula online, perguntei quem tinha ficado com raiva naquela semana. Um aluno respondeu com uma palavra: "Trânsito."
Eu não perguntei o que o outro motorista fez, nem quem estava certo. Perguntei como a cena aparecia para ele quando lembrava. Ele descreveu que se via de fora, do banco de trás do próprio carro, olhando para si mesmo com raiva.
Dali, mexemos no tom de uma palavra que ele dizia por dentro. O que tinha acontecido continuou igual. No fim, ele resumiu em três palavras: "Ficou mais suave."
Repare no que ele não precisou fazer: perdoar o outro motorista ou mudar de opinião sobre o trânsito.
Para a turma, eu nomeei o que tinha acontecido: "O que que a gente tá fazendo aqui? mudando as submodalidades da estrutura do pensamento dele que fazia ele ter raiva."
Mais tarde, na mesma aula, sobre quem tinha feito a mudança: "Não fui eu que fiz, foi ele que fez. Eu só perguntei e ele me verbalizou."
Outros textos sobre o que acontece por dentro antes da reação.
Ler o pilar PresençaVocê já mexe nesses botões sem perceber
Quando uma cena te incomoda muito, é comum ela parecer colada no rosto. Quando alguém diz "isso já passou", a imagem costuma ir para longe, sozinha.
A própria língua descreve o painel. Quando você diz que um problema é "enorme", que alguém está "na sua cara" ou que uma briga "ficou para trás", está falando de tamanho e distância.
Você faz esse ajuste o tempo todo, no automático. A diferença entre sofrer com uma lembrança e conviver com ela, muitas vezes, está em fazer de propósito aquilo que a mente já faz sem pedir licença.
O painel tem muitos botões, e cada canal da experiência tem os seus.
Nenhum deles mexe no fato. Todos mexem na experiência do fato.
O painel serve também para o que é bom. As lembranças que te sustentam têm tamanho, brilho e distância, e quase ninguém cuida delas com a mesma atenção que dá às que doem.
A mesma mecânica trabalha contra você
O problema é que o painel funciona nas duas direções, e quase sempre alguém está mexendo nele sem cuidado.
Antes de uma conversa difícil, muita gente projeta o pior cenário em tela gigante, colorida e com som alto. O corpo responde ao filme como se fosse real, e a ansiedade sobe antes de a conversa existir.
Depois de um erro, a cena volta grande e perto, várias vezes por dia. O mesmo episódio passa a custar duas vezes: uma quando aconteceu, outra a cada nova exibição.
Cada exibição do mesmo jeito deixa a próxima mais fácil. Sem perceber, você está treinando o caminho até a cena.
Tem gente que carrega uma cena de anos exatamente no tamanho do primeiro dia, e acha que isso é só boa memória. Quase sempre é a mesma exibição, repetida sem ninguém mexer no painel.
O motivo é simples. No dia em que aconteceu, a cena foi montada no calor da hora: grande, perto, alta.
Cada vez que ela volta, a mente não monta de novo do zero. Reaproveita a montagem que já existe, e a montagem antiga volta com o tamanho antigo, mesmo que você já não seja a pessoa daquele dia.
A pesquisa chegou perto disso por outro caminho. Em 2011, Ethan Kross, da Universidade de Michigan, e Ozlem Ayduk, da Universidade da Califórnia em Berkeley, revisaram uma linha de estudos sobre o que chamam de autodistanciamento: olhar a própria experiência negativa de fora, como um observador.
A tentativa de entender o que aconteceu, feita de dentro da cena, costuma virar ruminação e fazer a pessoa se sentir pior. Feita a certa distância, ajuda a tirar sentido da experiência.
Quando a lembrança que gira não é uma cena, mas uma frase que alguém disse e ninguém explicou, o caminho é outro, e está em como parar de remoer o que alguém te disse.
Afaste a imagem
Pegue uma lembrança morna, daquelas que ainda incomodam de leve: a reunião que travou, o comentário atravessado no corredor. Nada pesado.
Deixe a cena aparecer do jeito que ela costuma aparecer. Então, sem mudar nada do que aconteceu, empurre a imagem para longe, devagar, como quem afasta uma foto do rosto até ela caber na palma da mão.
Com a foto na palma da mão, veja se a vontade de continuar pensando nela ficou do mesmo tamanho.
O painel é seu
Na formação em PNL, as submodalidades têm aula própria no ciclo online, com prática, e aparecem ao vivo no presencial de quatro dias, em demonstrações com gente da turma. É ali, com alguém olhando, que cada um descobre quais botões pesam mais no próprio painel, porque o painel de uma pessoa não é igual ao da outra. Uma delas, com a raiva de um participante que nunca contou a cena, está em como controlar a raiva sem contar nada a ninguém.
Se você chegou aqui buscando como esquecer uma lembrança ruim, o que está ao seu alcance é parar de ampliar, sozinho e todo dia, aquilo que já pesa o suficiente.
O fato aconteceu uma vez. Quantas vezes ele vai passar na tela, e em que tamanho, é com você.




