Uma pessoa próxima chegou em mim e disse uma frase só: "você precisa aprender mais sobre lealdade."
E saiu. Não explicou, não deu exemplo, não perguntou nada.
Na mesma hora a minha cabeça completou o resto: "Putz, certeza que eu fiz alguma coisa que não gostou." Comentei com outra pessoa.
No dia seguinte, a frase ainda estava lá. No outro também.
Quem quer saber como parar de remoer uma frase dessas costuma tentar tirá-la da cabeça. Só que o que me prendia não era a frase.
Era a pergunta que eu não tinha feito.
A formação treina as perguntas que desfazem o mal-entendido antes que ele vire dias de cabeça ocupada.
Conhecer a formaçãoRemoer é uma pergunta sem resposta
Quando eu finalmente fui perguntar, a resposta coube numa linha: "Cara, eu não tô incomodado com nada."
Dias de cabeça ocupada por uma frase que nunca quis dizer o que eu achei que queria.
Numa aula, contando essa história para a turma, eu resumi o mecanismo assim: "Você vai ficar pensando naquilo porque o cara abriu algo na tua cabeça e não fechou. Ele não fechou o processo."
É isso que remoer quase sempre é. Uma conversa que alguém abriu e ninguém fechou. A mente não gosta de processo aberto, então ela fica voltando lá, de novo e de novo, tentando terminar sozinha uma coisa que só termina com informação.
Como a informação não vem, ela inventa.
Frase solta de desconhecido passa. Frase solta de quem importa gira. Quanto mais a pessoa pesa na sua vida, mais espaço a frase dela ocupa na sua cabeça.
O fato era a frase, o resto eu acrescentei
Olhando de fora, o que tinha acontecido era pouco. Uma pessoa disse uma frase sobre lealdade e foi embora. Isso é o que uma câmera teria filmado.
Todo o resto fui eu que coloquei: que eu tinha errado, que ela estava magoada, que alguma coisa entre nós tinha mudado. Nada disso estava na frase.
Na PNL, eu chamo essa separação de fato e significado. Fato é o que aconteceu e qualquer pessoa confirmaria. Significado é o que você pendurou em cima.
E é o significado que gira. O fato, sozinho, cabia numa linha e não tirava o sono de ninguém.
A frase de lealdade tinha um buraco enorme: lealdade em quê, em que momento, com quem?
A minha cabeça preencheu cada um desses buracos com o pior cenário disponível, e depois passou dias discutindo com o cenário que ela mesma montou.
Esse tipo de buraco tem nome: omissão, o pedaço que a pessoa deixou de fora da própria frase. Escrevi sobre ele no texto sobre como se comunicar com clareza e objetividade.
Quem remói quase nunca está remoendo o fato. Está remoendo o significado que criou para tapar o buraco.
Remoer pensamentos parece refletir, e trava
Remoer engana porque parece trabalho. Você está pensando no assunto, tentando entender, revendo o que aconteceu. Parece responsabilidade.
A pesquisa diz outra coisa. Em 2008, as pesquisadoras Susan Nolen-Hoeksema, Blair Wisco e Sonja Lyubomirsky revisaram o que se sabia sobre ruminação. Entre os efeitos mais bem sustentados: ruminar aumenta o pensamento negativo, atrapalha a solução de problemas, trava a ação e desgasta o apoio das pessoas em volta.
É como girar a chave de um carro sem combustível. O motor faz barulho, você sente que está fazendo alguma coisa, e o carro não sai do lugar.
O último efeito, o do apoio que se desgasta, eu já ouvi dito com outras palavras numa aula. Um aluno, falando de brigas que se repetem, soltou: "Porque quando você fica remoendo piora o relacionamento, cara. Qualquer relacionamento com qualquer pessoa, cara, não é só conjugal, não."
Outros textos sobre o que acontece por dentro antes da reação.
Ler o pilar PresençaComo parar de remoer: faça a pergunta que ficou faltando
Na mesma aula, depois de contar a minha história, eu disse para a turma: "Aí cabe a você fazer a pergunta certa, tá?"
A pergunta certa pede o pedaço que faltou. Para quem diz "você mudou", a que eu dei na aula foi esta: "Mas o que especificamente você percebe que eu mudei no seu ponto de vista?"
A resposta pode ser boa, pode ser ruim, pode ser uma provocação. A minha veio com provocação: "Cara, mas se você tá incomodado com isso, é porque você tem culpa no cartório."
Eu disse que não tinha culpa. Ele devolveu: "O que que você fez de errado no seu ponto de vista?" Aí eu respondi que, de acordo com a lei, eu não precisava criar provas contra mim mesmo, e fiquei quieto.
Mesmo assim, fechou. Com informação na mão, a cabeça para de girar, porque não tem mais buraco para preencher.
O silêncio protege da resposta que você teme
Se a pergunta resolve, por que quase ninguém pergunta? Porque perguntar parece arriscado. A resposta pode confirmar o pior.
Remoer dá uma ilusão de controle. Enquanto você não pergunta, o pior cenário é só uma hipótese, e hipótese não dói tanto quanto confirmação. Só que você paga essa proteção em dias, às vezes em semanas, com a cabeça ocupada.
Tem ainda o orgulho. Perguntar parece admitir que a frase te atingiu.
Então você finge que não atingiu, por fora, e passa a semana inteira atingido, por dentro.
Eu dou aula dessas perguntas, e mesmo assim passei dias sem fazer a minha. Quando ela finalmente saiu, resolveu numa conversa curta.
Nem toda lembrança que pesa é uma pergunta sem resposta. Quando o que volta é uma cena, com imagem e som, o peso está em outro lugar, e esse é o assunto de como tirar o peso de uma lembrança ruim.
Escreva a pergunta que falta
Pense na frase que está girando na sua cabeça esta semana. A que alguém disse, ou a que você acha que alguém quis dizer.
Agora escreva uma linha só: a pergunta que pede o pedaço que faltou, aquela que, respondida, faria isso parar.
Depois olhe para ela e repare numa coisa: quanto do que você vem remoendo estava na frase, e quanto você acrescentou esperando a resposta que nunca pediu.
Se a pessoa estiver ao seu alcance, você já sabe o que fazer com essa linha.
O processo fecha com informação
Na formação em PNL, as perguntas que recuperam o que a outra pessoa deixou de fora têm aula própria, com prática. É um treino de ouvido: escutar o buraco na frase no momento em que ela é dita, e não três dias depois.
Quanto mais cedo a pergunta sai, menos tempo a cabeça tem para construir o cenário. A pergunta feita no mesmo dia custa um pouco de desconforto. A pergunta adiada custa a semana.
Quem aprende como parar de remoer não aprende a esquecer. Aprende a fechar o que ficou aberto, de preferência no mesmo dia.
Eu passei dias com uma frase sobre lealdade na cabeça.
A resposta estava a uma pergunta de distância.




