A mensagem chega seca. Você responde antes de terminar de ler, com o dedo mais rápido que a cabeça.
Minutos depois, já calmo, você relê o que mandou e sente aquele frio no estômago. Não era para tanto. De novo.
Se você anda procurando como controlar a raiva, provavelmente já tentou o caminho de sempre: segurar, contar até dez, desabafar com alguém. E provavelmente percebeu que a cena continua lá, do mesmo tamanho, esperando a próxima mensagem seca.
Existe outro caminho, e ele não exige que você conte a história para ninguém.
A formação treina o trabalho com a estrutura do que você sente, com prática e correção.
Conhecer a formaçãoA raiva mora na forma da lembrança
Toda cena que te tira do sério tem duas camadas. Uma é o conteúdo: quem falou, o que falou, em que tom. A outra é a forma, o jeito como aquilo ficou guardado em você.
A forma é onde a imagem aparece quando você lembra. Se ela está colada no seu rosto ou longe. Se você está dentro dela ou olhando de fora.
Quase todo mundo tenta resolver a raiva pelo conteúdo. Conta de novo, explica melhor, procura alguém que concorde. E muita gente adia mexer nisso achando que teria de contar a vida inteira para alguém.
Não teria.
A forma muda mesmo quando ninguém conhece o conteúdo.
"Daqui, parece até meio idiota"
No primeiro dia de um presencial, chamei um participante para a frente, o Rodrigo, e avisei a turma: ele não ia falar da história. Perguntei se havia uma cena de raiva mais intensa do que a que ele tinha acabado de lembrar. Havia.
A conversa ali foi curta. "Pode me falar? Não, não precisa."
E eu expliquei para a sala por quê: "A gente, para fazer PNL, a gente não precisa saber o que a pessoa está pensando."
Quando ele trouxe a cena de volta, o corpo respondeu na frente de todo mundo. A testa franziu, o braço endureceu, a respiração ficou curta. Ninguém precisou de descrição: a raiva estava ali, visível para a sala inteira.
No meio do caminho, já olhando para si mesmo de fora da cena, o Rodrigo disse uma frase que nunca teria dito de dentro: "Daqui, às vezes, parece até meio idiota."
De dentro, aquilo era afronta. De fora, era uma cena em que ele mesmo tinha exagerado. A cena era a mesma, e o lugar de onde ele olhava tinha mudado.
Meia hora depois, olhando para aquela mesma cena, que ele nunca contou, ele falou só isto: "Tá tranquilo. Normal."
Outros textos sobre o que acontece por dentro antes da reação.
Ler o pilar PresençaVocê explode por pouco porque está dentro da cena
A dúvida mais comum de quem procura esse tema é outra: por que eu explodo por uma coisa pequena e depois me arrependo?
Primeiro, porque a raiva é um aviso. Ela aparece quando uma regra importante sua foi atropelada. A besteira do outro encostou numa regra grande sua, e a resposta veio do tamanho da regra, não do tamanho da besteira.
É por isso que a mesma frase, dita por um desconhecido, passa. Dita por alguém de casa, explode. A regra que ela atropela é maior.
Segundo, porque na hora você não está assistindo ao filme. Você está dentro dele, e o corpo responde como se fosse agora: aperta, esquenta, acelera. O cinestésico não sabe que aquilo já passou.
Terceiro, porque o gatilho não é exatamente o outro. Tem gente que passa pela mesma situação que você e não sente raiva nenhuma. O comportamento de quem provocou é o mesmo, e o que muda é o que acontece dentro de quem vê.
Essa é a melhor notícia do texto. Se o jeito de guardar a cena é seu, é você quem pode mexer nele.
Desabafar com raiva é treinar a raiva
A saída mais popular é pôr para fora. Contar, xingar, socar o travesseiro. Parece alívio.
O pesquisador americano Brad Bushman testou isso em 2002. Ele irritou os participantes de propósito e depois dividiu o grupo em três.
Uns socaram um saco de pancada pensando na pessoa que os tinha irritado. Outros socaram pensando em ficar em forma. Um terceiro grupo não fez nada.
Quem socou pensando no desafeto saiu com mais raiva e mais agressivo. Ficar parado funcionou melhor do que desabafar.
É como tentar apagar fogo abanando: o gesto parece ação, e a chama agradece.
A força de vontade falha por outro caminho. Ela segura o comportamento e deixa a forma da cena intacta. Você engole hoje, e a mesma cena volta amanhã, do mesmo tamanho.
Padrão não morre na força, morre na interrupção. O que interrompe a raiva não é apertar os dentes. É mudar o lugar de onde você olha.
Controlar a raiva antes de agir pede outro lugar
Em sala, uma pergunta muda o rumo da conversa. Em vez de "qual é o seu problema?", eu pergunto "como você faz para ter esse problema?". A primeira te dá a novela, e a segunda te dá o mecanismo.
O mecanismo da raiva quase sempre tem uma peça em comum: a pessoa só tem um lugar de onde olhar. Dentro da cena, colada nela. Dali, qualquer frase do outro soa como ataque.
O Rodrigo não saiu da sala com a cena apagada. Saiu com mais de um lugar para olhar para ela, e foi isso que trocou a palavra dele, de raiva para alívio. As duas palavras saíram dele, não de mim.
Se veja de fora, uma vez só
Hoje alguma coisa pequena vai te irritar. A resposta atravessada, o carro que fecha, a mensagem que chega seca.
Quando acontecer, faça uma coisa só, por dentro: dê um passo atrás e se veja na cena, como se estivesse assistindo de onde você está. Você ali, a outra pessoa ali, e você olhando os dois de longe.
Depois, repare numa coisa só: a frase que você ia mandar ainda quer sair do mesmo jeito? Por que um detalhe da imagem muda o peso inteiro dela é o assunto de como tirar o peso de uma lembrança ruim.
Quem tem mais de um lugar escolhe
Ninguém fica bravo porque é ruim. Fica bravo porque alguma coisa importante foi atropelada e, naquele instante, só existia um jeito de ver aquilo.
Na formação, demonstrações como essa acontecem ao vivo no presencial de quatro dias, que eu conduzo. Logo depois, a turma pratica em dupla, cada um conduzindo e sendo conduzido. Quem se pega sempre no mesmo gatilho encontra o outro lado desse trabalho em como sair do piloto automático.
Aprender como controlar a raiva é bem menos sobre coragem de se abrir e bem mais sobre onde você está parado quando olha para a cena. Quem tem um lugar só, reage. Quem tem mais de um, escolhe.
O Rodrigo nunca contou a cena. Só mudou de lugar.




