Um professor meu de PNL me contou uma história que eu repito em quase toda turma.
Ele estava conduzindo as sessões de um homem que queria parar de fumar. O homem tinha pedido aquilo, tinha se comprometido, e mesmo assim a coisa não cedia. Sessão, semana, sessão, semana, e nada.
Em vez de empurrar mais forte, ele parou e foi verificar a ecologia. Fez uma pergunta sem nenhuma mágica dentro: o que de bom você perde ao alcançar esse objetivo?
O homem respondeu na hora. O único momento do dia em que ele senta e conversa com a esposa de um jeito gostoso é na varanda de casa. Todo dia, os dois ali, fumando, falando da vida, conectados.
Opa, calma aí.
Não era só um hábito. Era o horário marcado do casamento dele.
Se você já se perguntou por que eu desisto quando começa a dar certo, essa varanda é a resposta mais clara que eu conheço. Quem larga no meio quase nunca é preguiçoso: a mudança estava cobrando uma conta que ninguém fez antes de começar.
A ecologia é uma das sete condições de um objetivo. As outras seis são treinadas em sala
Conhecer a Formação em PNLPor que eu desisto quando começa a dar certo: a conta que ninguém fez
A gente cresce ouvindo que mudar é uma questão de querer. Você quer, você faz, e se não fez é porque não queria o bastante.
Só que não é isso que acontece na sala. O que eu vejo, ano após ano, é gente que quis muito, avançou de verdade, e largou justamente no ponto em que estava funcionando.
E quase sempre existe um motivo com nome, endereço e horário.
O homem não estava sem vontade. Estava protegendo alguma coisa.
Volta pra varanda por um segundo.
O objetivo dele era um. O valor dele era outro. E os dois estavam amarrados no mesmo cigarro.
Meu professor colocou isso em uma frase que eu nunca esqueci: se o valor do cara é ter um bom relacionamento, e o melhor momento do dia dos dois é quando ele está fumando, a hora que ele parar de fumar, ele vai ter um problema no relacionamento.
Repare no que isso significa. Enquanto ninguém enxerga a varanda, o trabalho continua. A pessoa se esforça, avança, chega perto. E aí ela começa a sentir a falta daquilo que ela nem sabia que estava perdendo.
O que ela faz com o objetivo, na maioria das vezes? Deixa de lado.
Como ele mesmo resume: aquele trabalho que às vezes você fez de dois, três, quatro meses com a pessoa, ela começou a sofrer o dano por conta da parte ecológica e agora ela não faz mais.
De fora, parece desistência. De dentro, é proteção.
Pense em alguém que decide crescer muito rápido
Agora imagine uma situação que eu uso em aula, e que não é caso de ninguém: uma pessoa que decide ganhar duas, três vezes mais nos próximos três meses.
Pergunta ecológica na mesa: o que de bom você perde ao alcançar isso?
Ela pensa um pouco e responde que vai perder os melhores momentos com a filha. E que a filha é importante demais pra ela abrir mão.
Pronto. Ali, naquela frase, está o dia em que ela vai largar o objetivo. Não hoje, não amanhã, mas no primeiro mês em que a conta ficar cara demais.
A diferença é que agora ela sabe disso antes, e pode decidir com a informação na mão em vez de descobrir no meio do caminho.
O que o comportamento antigo ainda paga
O nome disso em PNL é ganho secundário, e a ideia é mais velha que a PNL. Num artigo de revisão publicado em 2003 no The American Journal of Psychoanalysis, o pesquisador holandês Jaap van Egmond mostra que o termo nasce em Freud, descrevendo a vantagem interpessoal ou social que a pessoa obtém como consequência do próprio sintoma.
Traduzindo pro português de todo dia: o comportamento que te atrapalha em uma área está pagando uma conta em outra.
Quatro peças explicam o mecanismo inteiro:
- Ganho secundário: o benefício de segunda mão que o comportamento indesejado entrega. Ninguém escolhe isso de propósito, e quase ninguém consegue nomear sozinho.
- Intenção positiva: um dos pressupostos da PNL diz que todo comportamento tem uma intenção positiva. Só que ela não mora no comportamento, mora na crença que o sustenta. Por isso você pode odiar o que faz e continuar fazendo.
- Emoção no fim da linha: toda intenção positiva está baseada em uma emoção. É o que a pessoa busca sentir no final. Segurança, alegria, pertencimento. O cigarro na varanda não entregava nicotina, entregava companhia.
- Ecologia: é o efeito do seu objetivo no seu sistema de vida inteiro, e na vida de quem está perto. Mudar uma parte pode interferir em outras, e o sistema reage.
A ecologia é uma das sete condições de um objetivo bem formulado. As outras seis eu trabalho uma a uma em sala, e você encontra o mapa delas em como definir metas que você realmente cumpre. Aqui a gente fica só nesta, porque é a que derruba mais gente boa.
Recaída faz parte do caminho
Pular a conta da ecologia sai caro:
- Em 1988, os pesquisadores John Norcross e Dominic Vangarelli acompanharam duzentas pessoas que tinham feito uma resolução de virada de ano e publicaram o resultado no Journal of Substance Abuse: 77% sustentaram por uma semana, e apenas 19% chegaram a dois anos.
- No mesmo levantamento, mais da metade das pessoas que conseguiram escorregou pelo menos uma vez no caminho, com uma média de catorze escorregões ao longo do período. Ou seja: quem venceu também caiu.
- O modelo de estágios de mudança de James Prochaska e Carlo DiClemente, publicado em 1983 no Journal of Consulting and Clinical Psychology a partir de 872 pessoas que mudaram o hábito de fumar por conta própria, já trazia a recaída como estágio do modelo, não como acidente. Em 1992, com John Norcross, os autores descreveram o percurso como uma espiral: as pessoas passam pelos mesmos estágios várias vezes antes de encerrar o comportamento.
- E tem o custo que não aparece em estudo nenhum: cada tentativa abandonada sem explicação vira prova contra você mesmo. Da terceira vez, a pessoa já não diz "não deu certo". Ela diz "eu sou assim".
Um aluno me disse, no fim de uma aula, que o maior aprendizado dele tinha sido perceber que ele não estava executando as coisas que já tinha aprendido no passado. Ele não precisava de mais conteúdo. Precisava saber o que estava travando a execução.
O que olhar antes de recomeçar
Seis cuidados antes da próxima tentativa:
- Pergunte antes de correr. A pergunta cabe numa linha: o que de bom eu perco ao alcançar isso? Ela custa trinta segundos e economiza meses.
- Nem sempre existe perda. Essa é a correção que eu faço em toda turma, porque a pergunta assusta. A pergunta ecológica você faz sempre. A perda nem sempre aparece. Muitas vezes tem, nem sempre tem.
- Cuidado pra não criar objeção onde não havia. Isso vale principalmente pra quem atende pessoas. Perguntar sobre perdas pode plantar uma dúvida que não existia. O objetivo é entender qual perda a pessoa acredita que vai ter, não inventar uma pra ela.
- Perda real não cancela o objetivo, renegocia o tamanho. Ou você diminui, ou você entra com clareza e assume o custo por um tempo determinado. Em vez de três meses, seis. Em vez do salto inteiro, metade dele. O objetivo continua de pé, e o resto da sua vida também.
- Combine com quem vai sentir. Se a sua mudança tira tempo, atenção ou presença de alguém, essa pessoa vai reagir, com ou sem a sua autorização. Combinado antes, vira apoio. Descoberto depois, vira conflito.
- Se a trava for uma frase, e não uma perda, o trabalho é outro. Tem gente que não perde nada e mesmo assim para. Nesse caso o problema costuma estar em uma frase que você repete sobre si mesmo, e é ela que precisa ir pra mesa.
Repare que nenhum desses princípios pede mais disciplina. Todos pedem mais informação.
A mudança que você já largou uma vez
Escolha uma mudança que você começou e abandonou, de preferência uma em que você já estava indo bem quando parou. Escreva à mão uma frase só, respondendo: o que de bom aquilo me tirou enquanto durou?
Depois leia a frase em voz alta e repare no corpo. Se a resposta for verdadeira, alguma coisa aperta, e é exatamente esse aperto que estava decidindo por você todo esse tempo. Não precisa resolver hoje. Precisa deixar de ser invisível.
E se você quiser que alguém olhe esse objetivo de fora antes de você investir mais um ano nele, é exatamente para isso que existe A Conversa.
Toda terça tem aula ao vivo na Turma Avançada. Os resumos ficam abertos no Spotify
Ouvir um resumoNão desista do objetivo. Descubra o que ele está cobrando.
Você não voltou atrás porque é fraco. Você voltou atrás porque uma parte da sua vida começou a doer e ninguém tinha avisado que ela ia doer.
Agora você sabe a pergunta. E saber a pergunta muda o que você faz na próxima vez que a vontade aparecer, porque você vai olhar o preço antes, e não no meio.
É por isso que eu digo que a resposta pra "por que eu desisto quando começa a dar certo" quase nunca está no objetivo. Está na varanda que você não quer perder.




