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Como ter disciplina: o estado vem antes da rotina

Por Victor Reis · 6 min de leitura

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Foto: Alexey Demidov · Pexels

Às três da manhã, Victor já está de pé para trabalhar, sem negociar com ninguém, muito menos consigo mesmo.

Para treinar, é outro homem. Decide na noite anterior, dorme pensando nisso, e quando chega a hora o corpo nem cogita levantar. O problema desaparece dependendo do motivo, e é aí que a pergunta como ter disciplina já nasce torta.

Ele mesmo resume assim: "O motivo para um é mais forte do que para o outro."

A explicação mais fácil seria vontade: ele quereria treinar menos do que trabalhar, por isso falha onde quer menos. Só que a vontade de treinar existe, e é real. O que muda entre as três da manhã do trabalho e as seis da manhã do treino não é o tamanho do motivo: é outra coisa, a mesma que explica por que você cumpre um compromisso com um cliente sem pensar duas vezes e falha, toda semana, o mesmo horário de estudo ou de treino que você mesmo marcou.

A vontade é frágil. O estado certo é implacável.

Disciplina não é um traço que você tem ou não tem: é chegar ao momento de fazer já no estado certo, com estrutura, não com caráter.

Reconhecer e usar os gatilhos que já existem em você é parte do que se treina na formação

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Todo comportamento automático tem um gatilho

Ninguém decide, todo santo dia, escovar os dentes. Alguma coisa dispara isso, quase sempre acordar ou terminar o café, e o corpo vai, sem reunião de conselho antes.

Na Programação Neurolinguística isso tem nome: âncora. Um estímulo (um lugar, uma hora, um som, um gesto) que já está ligado, por repetição, a um comportamento ou a um estado. Quando o estímulo aparece, o comportamento sai sozinho, sem precisar de decisão nova.

O problema de ter disciplina quase nunca é o comportamento em si. É que a tarefa nova não está ligada a nada. Ela fica solta no dia, esperando que você lembre dela e tenha, ao mesmo tempo, vontade suficiente para fazer. Dois acasos que raramente coincidem no mesmo minuto.

Rodrigo, aluno de um dos treinamentos presenciais do Victor, queria acordar às cinco da manhã para treinar antes de um dia inteiro de aula. Decidiu, colocou o despertador, foi dormir determinado. Não aconteceu.

Na reconstrução, com Victor, apareceu o detalhe que faltava: ele pensou em treinar e pensou em colocar o despertador, mas no momento em que pensou, o celular não estava ao alcance da mão. Pensar não é um gatilho; ter o aparelho ali, pronto pra ser usado naquele instante, seria.

Um detalhe pequeno bastou para o erro acontecer.

Ele não falhou por falta de motivo. O motivo dele era bom: treinar antes do próprio evento que ensina exatamente isso. Faltou o gatilho físico, no lugar certo, na hora certa.

Começar do zero sai caro todo dia

Enquanto uma tarefa não tem gatilho, cada dia é o primeiro dia. Você decide de novo, com a mesma energia de ontem, sem nenhum ganho acumulado de uma vez pra outra.

Um estudo de 2010, de Phillippa Lally e colegas, da University College London, acompanhou 96 pessoas por doze semanas. Cada uma escolheu um comportamento novo (comer algo, beber algo, uma atividade) para repetir todo dia, sempre no mesmo contexto do dia, por exemplo depois do café da manhã. O tempo para esse comportamento passar a sair sozinho, sem pedir decisão nova, variou muito de pessoa pra pessoa: de 18 a 254 dias. Mas um detalhe pesa mais do que esse número: falhar um dia não jogou o progresso fora. O que quebrava o processo era mudar o contexto, não a falha isolada.

Quem tenta ter mais disciplina sem prender a tarefa a um contexto fixo nunca chega no lado de cá dessa curva. Faz a tarefa depois do café numa segunda, antes de dormir na terça, no fim da tarde na quarta, e paga o preço cheio da decisão todo santo dia, sempre. É por isso que ter o curso mas não saber aplicar é queixa tão comum: a pessoa aprendeu a ferramenta e nunca prendeu ela a um contexto que se repete.

Endereço, não vontade

O nome que o Victor dá a isso é endereço, não vontade. Não é "vou treinar mais": é "assim que eu travo a porta do carro, a bolsa de treino já está no banco de trás". Não é "vou estudar todo dia": é "assim que eu sirvo o café da manhã, o material já está aberto na mesa, ao lado da xícara".

Vontade você provavelmente já tem de sobra, teria vontade de novo amanhã, e ainda ia falhar no mesmo ponto. O que falta é o endereço: o momento exato do seu dia, já ocupado por outra coisa, em que a tarefa nova se encaixa por trás, seja pra estudar, pra treinar ou só pra manter uma rotina que você já tentou sustentar antes, como fez com as metas que você realmente cumpre.

O mesmo gatilho serve para estudar ou treinar

O movimento é um só: escolha uma coisa que já acontece todo santo dia sem esforço nenhum seu (o café, trancar o carro, a escada que você sobe voltando do trabalho) e faça o primeiro gesto físico da tarefa nova logo depois dela, sempre no mesmo ponto da sequência.

O gesto não é a tarefa inteira: é só o primeiro pedaço dela, pequeno o bastante pra não pedir vontade nenhuma. Abrir o material. Calçar o tênis. Sentar na cadeira certa. O resto tende a seguir, porque o gatilho já fez a parte mais difícil, que é começar.

O gatilho, não o despertador

Repare, pelos próximos sete dias, só nesse primeiro gesto. Não cobre de você terminar a tarefa inteira, cobre só que o gesto aconteça, sempre atrás do mesmo evento do seu dia. Se ele falhar um dia, continue amarrado no mesmo lugar no dia seguinte: o estudo que te contei mostrou que é a consistência do contexto que conta, não a sequência perfeita de dias sem falhar.

Repita amanhã sem precisar sentir vontade

No Nível 1, o bloco sobre ancoragem é onde os alunos aprendem a reconhecer e instalar esses gatilhos com mais profundidade, inclusive puxando um estado de recurso junto com eles, não só o começo de uma tarefa. Mas o princípio já vale fora da sala.

Victor não resolveu o próprio problema de acordar cedo pensando em ter mais disciplina. Resolveu amarrando o comportamento a um motivo que já tinha gatilho pronto.

Como ter disciplina, no fim, deixa de ser pergunta sobre caráter: vira pergunta sobre endereço, sobre em que ponto do seu dia a tarefa nova vai morar.

E o motivo para um ser mais forte do que o outro deixa de decidir qualquer coisa, porque os dois passam a ter o mesmo tipo de gatilho.

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