Você diz que já perdoou. E diz de verdade: não sobrou raiva, não tem vontade de brigar, não fica remoendo a cena na cama.
Só que você não procura a pessoa. Não liga, não passa lá, não pergunta por ela. Quando alguém da família insiste, você muda de assunto com educação e todo mundo entende.
Aí vem a dúvida que quase ninguém faz em voz alta: perdoar é obrigado a conviver?
Não. Conviver é uma escolha sua, e continua sendo sua depois do perdão.
Só que existe uma segunda pergunta escondida atrás da primeira, e é essa que incomoda.
Perdoar é uma coisa, conviver é outra
Em sala a objeção vem pronta, quase sempre com as mesmas palavras: mas perdoar é conviver.
Não é o que eu vejo acontecer. Tem gente que perdoou e escolheu conviver, tem gente que perdoou e escolheu distância, e as duas coisas cabem no mesmo lugar.
A fala que vem depois, quando a pessoa já decidiu perdoar, costuma ser assim: "eu vou perdoar essa pessoa, mas eu não vou conviver. Eu ainda não consigo conviver com ela. Não consigo. Para mim é muito doloroso olhar para aquela pessoa pelo que ela fez."
Isso é um nível legítimo de perdão. Perdoar não significa voltar para onde você continua sendo machucado, e a decisão de conviver é sua, sempre.
Se a convivência já existe e a briga é sempre a mesma, aí o assunto é o ciclo, não o perdão.
Existe um perdão que é só indiferença
Uma vez, num treinamento, uma pessoa sentada na sala me contou o caso dela. Alguém tinha feito um mal grande a ela, e ela disse que tinha perdoado.
Depois completou a frase: "mas se ela tiver no deserto e tiver um copo de água na minha mão, eu jogo na areia".
Ela chamava aquilo de perdão. Tinha outro nome: indiferença. Morreu ou não, tanto faz.
Eu penso nisso como degraus, não como um interruptor de sim ou não.
No degrau de baixo está a indiferença que se apresenta como paz. Um pouco acima está quem perdoou e não convive. Depois vem quem perdoou e convive sem que aquilo custe nada.
E mais acima está quem olha para o passado e não sente dor nenhuma, a ponto de sentar na frente da pessoa e querer ajudar, sem esperar que ela procure primeiro.
Tem um degrau acima desse. Eu nunca conheci alguém que chegou nesse nível.
A indiferença parece o fim da mágoa e costuma ser a mágoa no modo mais barato.
Dá para ter decidido e ainda doer
Isso tem nome fora da sala também.
Everett Worthington, da Universidade Virginia Commonwealth, separa duas coisas que a gente chama pelo mesmo nome. Uma é o perdão que é decisão, a intenção de não revidar e de tratar a pessoa de outro jeito. A outra é o perdão que é emoção, quando o sentimento ruim dá lugar a outro.
São duas coisas distintas, e a primeira não puxa a segunda automaticamente. Dá para ter decidido perdoar e continuar com a emoção antiga inteira, guardada num canto.
É como pagar uma conta no débito automático e manter a fatura aberta na tela do celular. O dinheiro saiu, você fez a sua parte, e mesmo assim você continua abrindo aquela tela.
É por isso que "eu já perdoei" e "ainda me dói" cabem na mesma pessoa, no mesmo dia, sem ninguém estar mentindo.
O detalhe entrega o que o sentimento esconde
Numa aula sobre isso, eu perguntei à Juliana se aquilo ainda pesava. "Não, eu pus de lado. Tranquila."
Eu não discuti o sentimento da Juliana. Perguntei outra coisa.
Você consegue sentar e ter uma conversa boa com ela? Você é a pessoa que senta na frente e puxa conversa, ou você espera que ela sente na sua frente? Você busca?
A Juliana parou.
Detalhes mostram coisas. Às vezes a gente acha que deixou de lado, mas não deixou.
O nome disso é ressentimento, e a definição que eu uso em sala é bem simples: é quando eu vou e penso em algo e ainda me dói.
O custo não aparece de uma vez, numa conta grande. Ele aparece na agenda: o caminho um pouco mais longo, o almoço de domingo que você começou a pular, a conversa em que você fica quieto para o assunto não chegar naquele nome.
Isso é trabalho. Trabalho de manutenção, todo dia, para sustentar uma coisa que você jura que não pesa mais.
Quando a cena ainda é recente e você não consegue tirar da cabeça a frase que ouviu, o problema mora em outro lugar. E quando a emoção ainda vem quente, o caminho é outro ainda.
Mais textos sobre o que fica no corpo depois que a cena passou.
Textos do pilar PresençaA vontade não vem antes
Numa turma, o Marcelo contou a história do pai dele. O nome foi trocado.
O pai foi embora quando ele era criança. Anos depois, já adulto, o Marcelo foi morar com ele para ajudar, e foi deixado de novo. Depois disso, o pai disse que não tinha mais nada para falar com ele.
O Marcelo perdoou. E falou isso sem nenhuma pose: "eu perdoei ele. Não tenho raiva, não tenho nada, nada, nada. Só que eu também não tenho vontade de ir lá."
Um primo insistia com ele. Vai lá, fala com seu pai.
Eu fiz uma pergunta só: você tá baseando suas ações nos seus sentimentos?
Em sala eu chamo isso de endereço, não vontade. É a diferença entre querer uma coisa e escrever o que você vai fazer com ela, em que dia e de que jeito.
Perdão que fica esperando a vontade aparecer não sai do lugar, porque a vontade costuma vir depois do movimento, e não antes dele.
Mais adiante naquela mesma conversa, o Marcelo disse o que ele tinha feito com tudo aquilo: "Me tornei um baita de um pai presente, cara. Nunca que eu vou fazer meu filho sentir aquilo que eu senti."
Ele não ficou esperando sentir vontade para virar esse pai. Ele decidiu e foi.
Responda uma pergunta sobre o que você faz
Não tente medir o quanto você perdoou. Sentimento é um instrumento de medida ruim, porque ele muda de tamanho conforme o dia, o sono e a semana que você teve.
Faça o contrário. Pense na pessoa e responda uma pergunta sobre a sua conduta, não sobre o seu sentimento: quando o nome dela aparece numa conversa, você pergunta mais ou você muda de assunto?
Responda em voz alta, sozinho, e repare no corpo enquanto a resposta sai. O ombro, a respiração, a pressa de encerrar.
Não faça nada com isso hoje. Só guarde.
Se a resposta foi "mudo de assunto", você acabou de descobrir em que degrau está, e isso já é mais do que a maioria das pessoas sabe sobre a própria mágoa.
Isso não se resolve numa aula
Perdão é trabalho de repetição, e é por isso que o formato importa mais do que a boa intenção.
Na formação em PNL o mesmo conteúdo volta ao longo de doze meses, semana após semana, com prática corrigida e quatro dias presenciais no meio do caminho. O trabalho ali é com o significado que você pendurou no fato, porque o fato ninguém muda. Em PNL isso se chama ressignificação, e o que faz diferença é fazer isso com a sua história na mão, com gente por perto que está subindo o mesmo degrau.
A pergunta que abriu este texto era se perdoar é obrigado a conviver, e a resposta continua sendo não. A que vale mais é a outra: você ainda dá voltas por causa de alguém que, segundo você, já não pesa?
Talvez você esteja no degrau mais baixo ainda. Não tem nada de errado nisso: é um lugar no caminho, e o próximo passo é uma decisão, não uma espera.
A corrente continua na sua perna. A chave nunca saiu da sua mão.
A formação dura um ano inteiro porque o que pesa de verdade não cede numa tarde.
Ver como é a formação



