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Medo de falar em público: quatro fugas educadas

Por Victor Reis · 7 min de leitura

Capa do artigo: Medo de falar em público: quatro fugas educadas

Foto: Caio · Pexels

Toda vez que chegava a hora de subir no palco, eu pegava a minha esposa e colocava ela na frente.

Eu tenho 1,93. Ela ia na frente, eu ficava atrás dela, encolhido, torcendo para ninguém dizer o meu nome no microfone.

Do jeito que eu conto hoje: "eu puxava a minha esposa para frente e ficava atrás dela, me retraindo de tanto medo que eu tinha de subir naquele palco."

Ninguém em volta chamava aquilo de medo de falar em público. Chamavam de casal que trabalha junto.

A fuga nunca se apresenta como fuga

Numa aula sobre generalização eu leio em voz alta uma frase que resume essa crença: "Eu não consigo falar em público, por isso evito apresentações, fujo de reuniões importantes e deixo outras pessoas defenderem ideias que eram minhas."

Repare que a frase não descreve um tremor. Descreve uma agenda.

É assim que isso se organiza na vida adulta. O aperto para de aparecer como pânico e passa a aparecer como escolha sensata, do tipo que ninguém em volta questiona.

São quatro formas, e ninguém faz as quatro. Uma só já sustenta a coisa por anos.

  • Você empurra alguém para a frente. Foi a minha. Sempre tem uma pessoa que fala melhor, que conhece mais o assunto, que estava lá desde o começo. Você entrega o microfone para ela e sai com a sensação de ter sido generoso.

  • Você deixa a ideia ser defendida por outro. Essa é a mais cara das quatro. A ideia era sua, a reunião era sobre ela, e quem a explicou foi quem tinha voz naquele dia. De fora, parece espírito de equipe.

  • Você some da reunião em que teria de falar. Aparece um compromisso, um atraso, um "manda por mensagem que eu respondo". Parece agenda cheia, funciona como recusa.

  • Você decide que fala quando tiver mais resultado. A pergunta chega quase sempre nesta forma: do que eu vou falar, se eu ainda não tenho tanto resultado?

    Parece preparo. É a fuga mais elegante que existe, porque ela nunca vence: o resultado que basta não chega nunca.

O medo de palco quase nunca se chama medo. Ele se chama gentileza, agenda cheia, falta de preparo.

Quem disse que essa sensação se chama medo

Antes de um seminário grande, o meu corpo fazia sempre a mesma coisa. "Vinha uma sensação no meu estômago, o meu corpo ficava gelado, parecia que estava gelado, e eu ficava muito agitado. Eu ficava andando de um lado para o outro."

E eu ia repetindo para mim mesmo, enquanto andava: "nossa, eu estou com medo, eu estou com medo, eu estou com medo".

Hoje, em sala, eu paro nesse ponto e faço a pergunta que ninguém espera: "como você sabe que essa sensação é medo? Quem falou para você que essa sensação que você tem é igual a medo?"

A resposta costuma demorar, porque ninguém nunca perguntou. A sensação chegou, o nome veio junto, e os dois ficaram colados.

"Porque o meu medo é diferente do seu. Então será que é medo ou será que é o significado que eu dei para aquela sensação?"

Tem gente que sente exatamente isso e chama de expectativa. A mesma mão gelada, o mesmo estômago apertado, e a pessoa sobe.

Você não está sozinho na sensação. Anna Carolina Ferreira Marinho e colegas, da UFMG, ouviram 1.135 universitários, e 63,9% disseram ter medo de falar em público.

O número conta quanta gente sente. Não conta quem sobe.

Parte do medo é falta de estrutura

Tem um detalhe que quase ninguém liga a esse assunto, e eu demorei anos para enxergar.

Boa parte do que a pessoa chama de medo de palco é outra coisa: ela não sabe por onde começar a falar. Não tem começo, não tem meio, não sabe onde termina. Aí o corpo reage, e ela dá ao corpo o nome de medo.

Em aula eu digo assim: "às vezes a pessoa nem sabe que o medo de falar em público dele está correlacionado a esse segunda etapa aqui", a etapa de estruturar a fala.

Isso muda o tamanho do problema. Uma pessoa que acredita ter um defeito de personalidade acha que precisa virar outra. Uma pessoa que está sem estrutura precisa de estrutura.

E dá para testar sozinho. Pense na última vez em que você explicou, com prazer, uma coisa que domina, para alguém que perguntou. Provavelmente não tremeu. Era o mesmo corpo, a mesma voz, e você tinha começo, meio e fim.

Quatro dias presenciais de oratória com PNL, do corpo à estrutura da fala.

Ver o Pró Palco

O medo de falar em público cobra caro

No meu caso, os convites vinham porque o trabalho estava dando certo. Era exatamente por isso que apareciam. E, um a um, eu deixei todos passarem.

"E por conta disso eu perdi grandes oportunidades."

Eu faço essa pergunta em treinamento, e ela costuma pegar a sala inteira: "Quantas vezes, talvez, você poderia ter pego oportunidades na sua vida, mas não pegou pelo medo de falar em público?"

Cada fuga sozinha parece barata. Foi uma reunião. Foi um convite. Foi uma apresentação que outra pessoa fez melhor.

O preço aparece somado, anos depois, quando você olha para trás e percebe que a sala inteira sabe quem você é, menos pelo que você faz.

Tem ainda uma conta que não chega na sua agenda, e sim na dos outros. Depois de algumas recusas educadas, o convite para de aparecer, porque quem convidaria já sabe a resposta.

A fuga vira currículo. O que era um jeito de escapar de uma tarde ruim passa a ser a descrição de quem você é, repetida por gente que nem lembra quando começou a dizer isso. Quando a coisa chega nesse ponto, o trabalho é com a frase, não com a plateia, e é disso que trata uma crença que decide por você.

Descreva antes de dar nome

Aqui entra uma separação que eu uso em tudo, e que resolve mais do que parece: fato e significado. O fato é o que uma câmera filmaria. O significado é o que você acrescentou por cima.

A câmera filma mão gelada, respiração curta, gente andando de um lado para o outro. A câmera nunca filma "eu não sirvo para isso". Isso foi você que escreveu.

E, quando o nome já está colado na sensação, o corpo passa a obedecer ao nome. Você chamou de medo, medo pede fuga, e a fuga acontece antes de qualquer decisão consciente.

Separar os dois não tira a sensação. Tira a conclusão que vinha grudada nela, que é a parte que decide se você sobe ou empurra alguém para a frente.

Uma linha, sem a palavra

Escreva o que o seu corpo faz, sem chamar de medo

Antes da próxima vez em que você vai ter de falar na frente de alguém, escreva uma linha só com o que o seu corpo faz. Vale apenas palavra de câmera: mão gelada, respiração curta, peso no estômago, vontade de andar. A palavra medo não pode aparecer nessa linha.

Depois leia o que você escreveu e repare numa coisa só: nada ali diz que você não consegue falar.

Está escrito que o corpo se prepara. Quem acrescentou o resto foi você, e o resto é a parte que dá para mudar.

Na formação em PNL, o treino é separar a reação do significado que você dá a ela.

Ver a formação em PNL

Ninguém aqui nasceu desenvolto

A estrutura da fala, o começo, o meio e o fim que faltavam, é uma das três frentes do Pró Palco, o treinamento presencial de oratória, quatro dias imersivos. As outras duas são domínio de palco e presença.

A estrutura é a que quase ninguém procura quando o assunto é palco.

A âncora que troca o estado no minuto anterior eu desmontei em como não ficar nervoso. A plateia que só existe na sua cabeça, quando não tem plateia nenhuma, está em medo de gravar vídeos.

A sensação é um fato. O nome dela é uma opinião sua.

Quem ensina oratória quase sempre parece ter nascido pronto. Eu tinha medo de falar em público a ponto de me esconder atrás da minha esposa, e as pessoas em volta achavam bonito.

A minha esposa continua vindo aos eventos. Só não sobe mais no palco por mim.

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