Eu era uma pessoa extrovertida, mas extremamente medrosa.
Tinha pavor de falar em público, pavor de me posicionar na frente das pessoas. Quando era obrigado a fazer apresentação na faculdade, o medo tomava conta: eu ficava todo suado embaixo do braço, de medo.
Timidez de nascença não explicava, porque na roda de amigos eu falava. O que mudava era o lugar: bastava estar na frente da sala para o corpo trocar de resposta, antes de eu abrir a boca.
Por isso eu desconfio de toda resposta sobre como não ficar nervoso que começa pelo conteúdo: ensaie mais, decore mais, prepare mais um slide. O nervosismo mora no corpo, e chega antes da primeira palavra.
O que decide a sua apresentação é o estado em que você chega, mais do que o que você sabe.
O Pró Palco é a formação de oratória: presença, estrutura de fala e domínio de palco.
Conhecer o Pró PalcoNervosismo é um estado, não um defeito
Por muito tempo eu achei que aquele suor era o meu jeito. Que tinha gente que nasceu para falar e gente que nasceu para suar.
Aquilo tinha outro nome: estado. E estado não funciona como o clima, que você acorda e vê o que deu.
Estado é resposta. O corpo aprendeu a responder daquele jeito diante de uma plateia, e o que foi aprendido pode ser reaprendido.
Cada corpo tem o seu jeito de avisar. Numa aula de oratória, eu faço a pergunta: como que o medo se apresenta para você?
"Tem pessoas que quando estão com medo, a perna fica trêmula, fica mole. Tem pessoas que quando estão com medo, elas sentem algo no estômago." No meu corpo, era o suor.
Você não está sozinho nessa resposta. Anna Carolina Ferreira Marinho e colegas, da UFMG, ouviram 1.135 universitários, e 63,9% disseram ter medo de falar em público. Numa sala de trinta alunos, são uns dezenove com o mesmo medo que você.
O número diz quantos têm medo, não quantos falam mal. O conteúdo está pronto. O estado, não.
Ao falar em público, o corpo responde a um sinal antigo
Pense naquela música que te joga direto num verão de anos atrás. No perfume que traz uma pessoa inteira de volta. No tom de voz de alguém que, em um segundo, acende a sua irritação.
Nenhuma dessas ligações foi escolhida por você. Elas se formaram sozinhas, num momento de emoção forte, e ficaram. Hoje, basta o estímulo aparecer para o estado vir junto.
Na PNL isso tem nome: âncora. Um sinal do mundo, um som, um cheiro, uma imagem, grudado num estado interno a ponto de um chamar o outro.
Uma âncora não precisa de repetição quando a emoção é grande. Uma vez basta. Por isso uma única apresentação que deu muito errado pode pesar mais do que várias que deram certo depois dela: a ruim foi gravada com mais emoção, e é ela que o corpo consulta quando alguém chama o seu nome.
Na mesma aula, eu explico o porquê assim: "nosso corpo ele memoriza principalmente momentos intensos e emocionais." E explico também para que serve o medo: "a função do medo é te proteger de algo ruim. E às vezes esse algo ruim é só uma mentira que às vezes você está acreditando ainda."
O nervosismo antes de falar funciona do mesmo jeito, só que contra você. A sala cheia, o microfone, o seu nome sendo chamado: são âncoras antigas, montadas lá atrás, numa apresentação que deu errado ou numa risada na hora errada. O corpo responde ao sinal, e a reunião de hoje só fez o sinal tocar de novo.
A força de vontade chega tarde
A reação mais comum é brigar com o corpo. Respira fundo, se acalma, para de tremer. Às vezes até funciona um pouco, e quase sempre funciona tarde, quando a voz já saiu fina na primeira frase.
A briga perde porque o estado chegou antes do raciocínio. Você decide ficar calmo com a cabeça, e o corpo já decidiu outra coisa um segundo antes.
Tem um agravante. Mandar em si mesmo "não posso ficar nervoso" põe a atenção inteira no nervosismo. Quanto mais você vigia o tremor da mão, mais a mão treme na sua frente, e menos você lembra do que ia dizer.
Padrão não morre na força, morre na interrupção. O nervosismo que se repete a cada apresentação é um padrão, e ele não cede porque você mandou. Ele cede quando alguma coisa entra no caminho e oferece ao corpo outra resposta.
Você já tem dezenas de âncoras que mudam o seu estado em segundos. Só nunca olhou para elas de propósito.
O custo aparece na frase que ficou na garganta
Ninguém te cobra multa por travar. O preço é mais quieto do que isso.
É a ideia boa que você não falou na reunião porque a voz ia tremer. É a promoção que foi para quem falou primeiro, não para quem sabia mais. É a apresentação que você recusou "porque não é a sua praia", e que era.
Há ainda um custo que se acumula. Cada vez que você foge de falar, o corpo aprende que fugir resolve, e a próxima apresentação já começa com esse aprendizado em cima dela.
Quem não conhece o próprio estado entrega ao ambiente a escolha do próprio estado. E o ambiente, na hora de falar em público, costuma escolher mal.
Encontre uma âncora que você já tem
Hoje, num momento tranquilo, coloque para tocar uma música ligada a uma fase boa da sua vida. Não uma música que você acha bonita: uma que te leva de volta para algum lugar.
Fique só nos primeiros segundos e repare numa coisa: o que o seu rosto fez antes de você decidir qualquer coisa.
Se ele mudou, você acabou de ver uma âncora funcionando. Uma que você nunca escolheu e que troca o seu estado em menos tempo do que leva para ler esta frase.
É isso que o nervosismo faz com você diante da plateia. E é por isso que dá para trabalhar com ele: o mecanismo que te trava é o mesmo que te solta.
A ancoragem é um dos blocos da formação em PNL, ao lado de outras ferramentas de estado.
Conhecer a formaçãoO palco começa antes de você subir
O Pró Palco leva isso para cima do palco: quatro dias imersivos de presença, estrutura de fala e domínio de palco, e eu já formei mais de quinhentos palestrantes. Se o que te aperta é a câmera, e não a plateia, escrevi sobre isso em medo de gravar vídeos. E, se a cena que pesa é de uma apresentação antiga que ainda arde, o caminho passa por tirar o peso de uma lembrança ruim.
Saber como não ficar nervoso é descobrir que o mesmo corpo que suava antes de falar sabe mudar de estado em dois segundos, quando toca a música certa.
A plateia só está tocando uma música antiga.




