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É errado sentir raiva? O que some junto com ela

Por Victor Reis · 6 min de leitura

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Foto: Juho Alonen · Pexels

"Eu não fico mais com raiva, só que eu tô com um problema agora."

Perguntei qual era o problema. O que ela tinha acabado de dizer parecia um elogio.

"Eu não faço mais nada."

Como assim?

"Porque tudo que eu fazia era na base do ódio."

Tudo o que ela fazia no trabalho saía dali. Ela tinha conseguido exatamente o que pediu, e junto foi embora a coisa que a tirava da cadeira.

Quem pergunta se é errado sentir raiva quase sempre está pedindo isso: um botão de desligar. E quase nunca imagina o que some junto quando o botão funciona.

A dor no joelho é um aviso, não um defeito

Em sala eu começo por uma pergunta que parece boba: você gosta de sentir dor?

Ninguém gosta. Aí eu pergunto quem treina musculação, e sempre tem gente. Essa pessoa treina, fica dolorida dia após dia, e continua indo.

Então eu levo a conversa para o lugar onde ela trava. Uma dor no joelho é boa ou ruim?

A sala se divide. A maioria diz ruim, porque limita.

E aí alguém chega sozinho na resposta: se você não tivesse a dor e tivesse o problema no joelho, você continuaria treinando em cima dele todos os dias. "A dor sinaliza seu problema."

Quem falou essa frase não fui eu. Foi um aluno, e ele tinha acabado de descrever como a emoção funciona.

A dor é um aviso. A dor é um aviso de que existe algo ruim. É a mesma coisa que a sua emoção faz.

Se desse para desligar só o aviso e seguir treinando, o joelho não ficaria melhor. Ficaria pior em silêncio.

E é aqui que quase todo mundo se perde. A questão é que as pessoas não entendem qual é a intenção do sentimento.

A gente olha para a raiva como quem olha para um defeito de fábrica, uma peça que não deveria estar ali. Então passa a vida tentando consertar a peça, quando ela está fazendo exatamente o que foi feita para fazer.

Não é errado sentir raiva de alguém

Aqui vem a objeção, e ela é justa: mas a raiva desencadeia comportamento ruim.

Desencadeia. Gente grita, manda mensagem que não devia, bate porta, fala o que depois não dá para desfalar.

Só que repare no que a frase está julgando: a intensidade, não o sentimento.

Em sala eu devolvo com outra pergunta. Na proporção certa é ruim ou é bom?

Porque gente alegre demais também faz besteira, e ninguém nunca classificou a alegria como sentimento negativo.

O que incomoda na raiva é a proporção, e o que você faz com ela nos dez segundos seguintes.

Então, é errado sentir raiva de alguém? O que custa caro é descobrir tarde o que ela apontava.

E o preço de discutir isso é alto, porque enquanto você decide se podia ou não podia sentir, o que gerou a raiva continua exatamente onde estava.

O combinado que ninguém cumpre segue não cumprido. A conversa que precisava acontecer continua sendo adiada para um dia mais calmo. Na semana seguinte a raiva volta, e volta maior, porque ela não tem outro jeito de avisar.

Se o que te pega é a reação, e não o que você sente, o assunto é outro, e ele está em como controlar a raiva sem contar a ninguém.

A raiva aponta um fato ou um significado

Se está doendo, é porque existe algo de errado. Se existe uma emoção que está te deixando mal, é porque existe algo de errado na sua vida ou na forma como você olha para a sua vida.

São dois problemas diferentes, e quase toda confusão com emoção vem de atacar o errado dos dois.

Em PNL a gente separa duas coisas o tempo inteiro: fato e significado. Fato é o que uma câmera teria filmado. Significado é o que você acrescentou por cima do que a câmera filmou.

A raiva se divide do mesmo jeito.

Tem a raiva que aponta um fato. Eu estou mal porque não tem comida na minha casa. Não existe percepção para ajustar aqui: o que precisa mudar é o ambiente, a situação, a vida.

E tem a raiva que aponta um significado. Alguém que estava bravo com outra coisa falou bravo comigo, e eu passo o dia inteiro carregando aquela emoção, guardando mágoa de uma pessoa, sendo que não era para mim toda aquela raiva.

Nesse segundo caso não tem nada no ambiente para consertar. O que muda é a percepção.

A conta de carregar isso por uma semana inteira eu abri em como parar de remoer o que alguém te disse.

Então, toda dor carrega consigo a necessidade de uma mudança.

Dá uma nota sincera à sua raiva

Para esta semana

Uma nota de 1 a 10, e uma linha embaixo dela

Eu uso uma escala simples em sala, e ela cabe em qualquer papel.

De 1 a 10, quanto você domina a sua raiva? Um quer dizer que ela manda em você. Dez quer dizer domínio total: ela aparece, você sente, e continua decidindo o que faz.

A parte difícil não é a escala, é a palavra sincera. Quase todo mundo se dá uma nota mais alta do que a nota que a última discussão daria.

Escreva a sua nota e, embaixo dela, uma linha só: o que essa nota está pedindo que mude, a minha vida ou o meu jeito de olhar para ela?

Se vier uma coisa concreta, uma conversa que não aconteceu, um combinado que ninguém cumpre, um lugar onde você não quer mais estar, a sua raiva estava apontando um fato. Tem o que fazer, e é fora de você.

Se não vier nada concreto, e o que vier for sobre a intenção da outra pessoa, ela estava apontando um significado. Aí o que muda é o significado, e isso também é uma coisa a fazer, não um conselho para relevar.

Em sala o trabalho é com a emoção que apareceu, não com a que deveria ter aparecido.

Como funciona a formação

Sentir menos não é o objetivo

A pessoa do começo do texto tinha ficado sem combustível, e estava chamando aquilo de equilíbrio.

Nem sempre a emoção certa é a tranquilidade.

É bom que você se sinta mal, é bom que você se sinta frustrado, porque a frustração também gera engajamento. Quem não se incomoda com nada também não muda nada.

O objetivo é entender o que cada coisa está avisando, e aí escolher o que fazer com o aviso.

Na formação em PNL, boa parte do trabalho é com estado emocional: reconhecer em que estado você chega numa conversa e aprender a mudar de estado de propósito, em vez de esperar passar. Isso tem aula própria, prática em dupla e correção na hora, e o mesmo conteúdo reaparece em momentos diferentes do ano.

Padrão emocional não cede porque você entendeu uma vez. Cede porque você repetiu com a sua história na mão.

Quem pergunta se é errado sentir raiva costuma estar tentando resolver pelo lado mais caro, desligando o alarme da casa inteira para não ouvir o barulho.

A raiva funciona como fumaça: ela não é o incêndio, ela diz onde ele começou.

É errado sentir raiva? Não. Caro é ficar bravo toda semana pelo mesmo motivo e nunca perguntar o que aquilo está apontando.

Mais textos sobre o que você sente e o que fazer com o aviso.

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Quem desliga o aviso não resolve o problema. Só para de saber que ele existe.

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