Um aluno levanta a mão numa aula online e faz a pergunta que muita gente só digita sozinha, de madrugada: como não absorver os problemas dos outros. Ele descreve de outro jeito: algumas pessoas resistem a imaginar quando são mandadas imaginar. É fácil pedir "veja a cena". Difícil é a pessoa ver de verdade.
Eu não respondo com teoria. Pergunto qual carro ele tem. Ele responde. Eu digo que não sei se ele preferiria estar dentro do carro, se vendo ali de fora. Ele solta, quase sem pensar: "Não tem como, cara."
Pronto. Ele já estava de fora, e nem percebeu que eu tinha mudado o lugar de onde ele olhava. É essa a saída: mudar de onde você vê a cena do outro, sem entrar menos na conversa e sem se afastar da pessoa.
Ele nunca percebeu que foi dissociado
Na PNL isso tem nome. Associado é estar dentro da cena, vendo pelos próprios olhos, sentindo de novo o que sentiu. Dissociado é estar de fora, observando a história como quem assiste a um filme.
Quando alguém te conta um problema, o padrão automático é entrar. Você escuta, e sua mente monta a cena como se você estivesse lá dentro dela, vendo pelos olhos da pessoa.
Na mesma aula, expliquei por que a manobra do carro funciona assim, rápida e sem esforço: "Na maioria dos casos também não é uma regra, mas quando nós dissociamos uma pessoa da imagem, a intensidade emocional ela é menor."
Fiz a mesma coisa pouco depois, num exemplo de casal. Falei que não sabia como a Camila se veria de fora, ali num canto do quarto, olhando a própria cena. Ela também saiu de dentro da cena sem perceber que tinha saído.
"Pronto. Dissociou a pessoa e a pessoa não percebeu que você dissociou ela. Você só fez PNL. É elegante."
O problema do trabalho troca de lugar
O custo de ficar associado à cena do outro passa longe da hora em que ela aconteceu. Mora no que você leva embora.
Quem atende gente o dia inteiro, numa clínica, num balcão, numa sala de reunião, sabe o que é terminar o expediente e descobrir que ainda está dentro de uma conversa que já acabou. O problema do trabalho não fica no trabalho. Ele troca de lugar e vai para o jantar, para o carro no trânsito, para a cama às onze da noite.
A pessoa que atendeu você naquela tarde continuou com o problema dela. O que voltou para a sua casa foi uma cópia, montada do jeito mais pesado possível, porque foi montada de dentro.
Isso não é fraqueza, nem falta de profissionalismo. É o funcionamento padrão da mente, que entra na cena que ouve, porque é assim que ela entende o que está sendo contado. O problema é ficar lá depois que a conversa termina.
Um estudo de Olga Klimecki e Tania Singer, do Max Planck Institute, mostra o tamanho desse custo em laboratório. Um grupo de pessoas foi treinado primeiro para sentir junto, de verdade, a dor de alguém que sofria num vídeo. O mal estar relatado por elas aumentou.
Depois, as mesmas pessoas treinaram outra postura: olhar com cuidado, sem se afogar na cena. O mal estar caiu, e voltou o bem estar.
Entre as duas fases, ninguém passou a se importar menos. Só trocou de lugar enquanto olhava.
Olhar de fora não é ficar frio
A objeção mais comum a essa altura é: se eu saio da cena, eu fico frio. Eu paro de me importar.
Padrão não morre na força, morre na interrupção. Isso quer dizer que resistir, aguentar, tentar ser forte enquanto escuta, não desliga o padrão de entrar na cena do outro. Só cansa mais. O que desliga é interromper o automático, mudando o lugar de onde você vê, sem sair da conversa.
Olhar de fora não desliga de ninguém. Você continua ouvindo, com os ouvidos abertos, sem precisar ocupar o lugar da pessoa dentro da cena para provar que se importa. Dá para estar inteiro na escuta e de fora da dor ao mesmo tempo.
Dá para estar inteiro na escuta e de fora da dor ao mesmo tempo.
Ter o mesmo problema não impede ajudar
Tem gente que acha que, para ajudar alguém com um problema, precisa ter vivido o mesmo problema, e vivê-lo de novo junto com a pessoa enquanto ouve.
É o contrário. Quando você aplica qualquer ferramenta de ajuda, a própria aplicação já te coloca de fora: você está olhando o mesmo problema que vive, só que agora de outro lugar, com outra tarefa na mão. O que de fato dificulta é falar de um assunto que você não conhece nada, não ter o mesmo problema que a pessoa na sua frente.
Isso importa para quem atende gente por profissão, mas vale para qualquer um que já ouviu um amigo desabafar um problema parecido com um seu. A cena de dentro e a cena de fora cabem na mesma pessoa, em momentos diferentes.
Você pode ouvir sem entrar na cena
A próxima vez que alguém te contar um problema, sem parar de ouvir, sem fechar a cara, imagine por um segundo que você está vendo aquela cena de um canto da sala, e não pelos olhos de quem fala.
Repare o que muda no corpo. Normalmente alguma coisa afrouxa no peito ou na respiração, bem pequena, quase no mesmo instante.
Não precisa manter isso o tempo todo, nem anunciar para a pessoa o que você fez. É só um instante de mudança de lugar, no meio da escuta, sem perder uma palavra do que ela está dizendo.
Funciona melhor quanto mais cedo você faz, antes de a cena já ter te puxado para dentro. Com o tempo, o instante fica mais rápido, até acontecer quase junto com a primeira frase da pessoa.
Esse é o movimento. A calibragem fina, de quando repetir e com que tipo de conversa, é treino, e cabe na formação, não num artigo.
Se o seu problema é mais uma lembrança antiga que não sai da cabeça do que uma conversa que acabou de acontecer, tem um caminho diferente para isso, com outra demonstração. E se o que você quer é voltar rápido a um estado de calma que já é seu, esse outro texto mostra como.
No Nível 1 da formação, associação e dissociação têm bloco próprio, com prática guiada toda terça e também no presencial de quatro dias, com gente de verdade trocando de lugar na cena do outro até o movimento parar de precisar de esforço.
Isso se treina com prática guiada, toda semana, com o grupo.
Conhecer a formaçãoA pergunta de como não absorver os problemas dos outros nunca foi sobre deixar de se importar.
Sempre foi sobre escolher, cada vez, de onde você escuta.



