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Por que as pessoas não mudam (e o que é seu)

Por Victor Reis · 7 min de leitura

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Foto: Igor Starkov · Pexels

Um homem me procura sozinho porque quer salvar o casamento.

A esposa dele, Camila, nem sabe que ele está ali. Ele quer uma coisa, só uma: que ela volte a confiar nele.

Dou uma tarefa simples: vá para casa hoje, leve flores ou um bombom, alguma coisa diferente do que você costuma fazer.

Já aviso o que vai acontecer. Camila vai xingar: "só faz isso quando a gente tá mal."

Essa pergunta chega para mim quase toda semana, de um jeito ou de outro: por que as pessoas não mudam. E a resposta começa com uma correção pequena, que muda o resto da conversa.

A formação em PNL treina justamente essa virada, trocar o esforço de mudar o outro pelo domínio da sua própria parte.

Conhecer a formação

As pessoas não mudam por você

Na formação, uma das primeiras coisas que ensino sobre objetivos é simples de dizer e difícil de aceitar. Um objetivo bem formulado precisa estar sob o controle de quem pediu.

"Quero que meu cônjuge mude" não passa nesse teste. Não importa o quanto você esteja certo, nem quão bem você argumente.

O cumprimento desse pedido nunca esteve com você. Esteve com a outra pessoa o tempo inteiro, e ela decide sozinha o que faz com ele.

Esse objetivo nunca esteve sob seu controle

Quando alguém chega até mim dizendo "eu quero que ele mude", a pergunta que devolvo é outra: o que, nessa história, está sob o seu controle?

Não é a mudança dele, é a forma como você vai agir diante de cada problema que aparecer na relação.

A troca parece pequena. Na prática, ela move o objetivo inteiro, de um lugar que você não comanda para um lugar que só depende de você.

Vale para casamento, para filho, para equipe. Vale também para quem atende gente por profissão, terapeuta, coach, mentor. A tentação profissional é a mesma: medir o próprio trabalho pelo que a outra pessoa faz depois da conversa, e não pelo que você ofereceu dentro dela.

Isso não quer dizer que o resultado não importa. Quer dizer que o seu objetivo, o que está sob o seu controle, é a qualidade do que você entrega na sala, não o uso que a outra pessoa faz disso depois que sai dela. Confundir as duas coisas é o jeito mais rápido de carregar um peso que nunca foi seu.

O objetivo que depende da mudança do outro não é objetivo. É esperança com outro nome.

O objetivo que depende da mudança do outro não é objetivo, é esperança com outro nome.

Quanto mais você empurra, mais ela resiste

Em 1966, o psicólogo Jack Brehm, da Duke University, descreveu um fenômeno que explica a outra metade do problema: a reatância psicológica.

Quando alguém sente a própria liberdade de escolha ameaçada, a reação natural não é avaliar o que foi dito, é defender essa liberdade.

Na prática, isso quer dizer o seguinte. Quanto mais você insiste, cobra e repete o mesmo argumento, mais a outra pessoa sente que está sendo empurrada, e quem é empurrado resiste, ainda que o pedido faça todo sentido do mundo.

Pense num adolescente que ouve o mesmo aviso sobre o celular, todo dia, na mesma hora, com as mesmas palavras. Ele não está avaliando se o aviso tem razão, porque na maior parte das vezes tem. Está sentindo o próprio espaço encolher a cada repetição, e o que ele defende não é o celular, é o direito de decidir sozinho quando vai guardar.

Isso não é uma escolha deliberada, é reflexo. A pessoa não examina o pedido para decidir se ele faz sentido, ela sente a ameaça e age para proteger o espaço antes de prestar atenção ao conteúdo. Por isso repetir o mesmo argumento com mais detalhes raramente ajuda. O problema não é a qualidade do argumento, é o lugar de onde ele chega.

É por isso que "já falei mil vezes para ele mudar e ele não muda" não é fracasso do seu argumento, é o argumento empurrado fazendo exatamente o que argumento empurrado faz: sendo rejeitado.

Discutir cansa, agir muda alguma coisa

Uma terapeuta que conheço bem, num dia difícil de trabalho, me disse uma frase que guardei até hoje: "eu não aguento mais atender. Eu falo, eu ensino, e a pessoa não faz."

Ela não estava errada no que ensinava. Estava gastando a energia no lugar errado, tentando produzir com palavras uma mudança que só a outra pessoa pode fazer.

Esse é o custo de quem segue nessa conta. Você discute, explica de outro jeito, repete com mais calma, e no fim do dia está mais cansado, sem nada novo para mostrar.

Quem atende gente sente isso quase todo dia. Você entrega a sessão, a aula, a orientação certa, e sai de lá carregando o resultado como se fosse seu, mas não é. O que a outra pessoa faz depois que sai da sala é a parte dela, não a sua.

A discussão não move o objetivo. Uma ação sua, sim.

Troque a vontade por um endereço

Chamo isso de endereço, não vontade. Vontade é "eu quero que ele mude". Endereço é o que você vai fazer, quando, e o que vai dizer, independente da resposta que vier.

Foi o que pedi para aquele homem. Não um argumento melhor para convencer Camila de que ele tinha mudado. Uma coisa concreta, e uma frase sem cobrar nada em troca: "eu te entendo, amor. Faz muito sentido tudo que você está me dizendo, mas eu estou mudando por você."

Sem discurso para convencer, e sem esperar aplauso.

Ela xingou, como eu tinha avisado, e então parou, porque brigar ainda é sinal de esperança. O silêncio é que avisa que a esperança foi embora. Ela ficou olhando para ele, pensando: ele nunca fez isso, o que está acontecendo?

Escolha agora um ponto de fricção que se repete com alguém da sua vida. No lugar de preparar o próximo argumento, escreva uma linha com uma coisa concreta que você vai fazer diferente esta semana, e faça, sem anunciar e sem cobrar reação.

Se você atende gente por profissão, o exercício é o mesmo, só muda a pergunta de partida. Em vez de "por que ele não aplica o que eu ensinei", pergunte o que você, especificamente, vai fazer diferente na próxima conversa, antes de saber como ela vai reagir.

Essa troca de objetivo é uma das primeiras coisas que se trabalha na formação em PNL, no acompanhamento online de doze meses. Cada aluno escreve o próprio objetivo e a turma aponta onde ele ainda depende da mudança de outra pessoa. É também onde se entende por que uma briga que se repete sempre pelo mesmo motivo tem outra causa, e onde se discute como convencer alguém a mudar de ideia, o que é uma conversa diferente, sobre uma decisão pontual, não sobre comportamento ao longo do tempo.

É lá também que a boa formulação de objetivos entra inteira, no que se aprende sobre como definir metas que você realmente cumpre: a mesma regra que vale para o casamento vale para qualquer meta que dependa de alguém que não é você.

O acompanhamento de 12 meses da Formação em PNL trabalha essa virada, do que você espera do outro para o que já está, de fato, com você.

Conhecer a formação

Quando chego nesse ponto, em sala, sempre tem alguém que resiste à ideia. É a mesma pergunta que abriu este texto, por que as pessoas não mudam, voltando de outro jeito: acha injusto ter que agir primeiro, sozinho, sem garantia de nada.

Entendo. Também resisti, quando aprendi isso.

Mas a garantia nunca esteve do lado de quem muda primeiro. A única parte da mudança que já foi sua o tempo inteiro é a que você nunca tentou.

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