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Como padronizar o trabalho da equipe sem virar manual

Por Victor Reis · 7 min de leitura

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Foto: Gustavo Fring · Pexels

Antes de você colocar a mão ali, por que você quis colocar ali?

Quem perguntou foi um consultor, recém-chegado a uma empresa de serviço técnico para avaliar a competência da equipe. Em vez de olhar o resultado do serviço, ele foi olhar o que passa na cabeça de quem faz, antes do serviço começar.

O técnico respondeu na hora. "Ah, é porque eu já olhei do lado de cá."

Se você está procurando como padronizar o trabalho da equipe, guarde essa resposta. Ela é curtíssima, foi dita sem pensar, e dentro dela mora um processo inteiro que nunca foi escrito em lugar nenhum.

Esse consultor é o Rodrigo, aluno da formação. Ele trouxe a cena para a aula online no dia em que eu fiz a pergunta de sempre: quem aqui está aplicando modelagem?

Toda equipe tem um processo que ninguém escreveu. Aprenda a extrair o seu

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Como padronizar o trabalho da equipe: o problema não é a equipe

A frase que eu mais ouço de quem lidera uma equipe é uma variação da mesma queixa. Minha equipe não entende o que eu peço. Ninguém faz do jeito que eu esperava. Só fica bom se for eu.

E a conclusão que quase todo mundo tira é a mesma: falta gente boa.

Existe outra leitura, a que eu ensino em sala e a que o Rodrigo testou na prática. Na maior parte das vezes, a equipe entendeu exatamente o que você pediu. O problema é que você pediu uma fração do que você faz.

O que o especialista deixa de fora não é o passo. É o critério.

O especialista que não sabe que é especialista

Isso tem uma explicação simples, e ela não é falta de boa vontade.

Quando uma pessoa é muito boa naquilo que faz, ela na maioria das vezes não sabe os detalhes daquilo que ela faz. Aí você chega nela e pergunta: como é que você consegue esse resultado? E ela verbaliza. Só que ela verbaliza de um jeito extremamente generalista, omisso e distorcido.

É o que eu chamo em aula de talento nato. A pessoa é muito boa, e ela não sabe que é boa. Ou sabe que é boa, mas não sabe como faz para ser boa.

Eu vivi isso do outro lado, anos atrás. Eu treinava um grupo de palestrantes e a gente tinha uma cultura rara: quando um passava na frente do outro, o que estava atrás chegava e perguntava o que ele estava fazendo de diferente. Um ia passando para o outro. Várias empresas tentaram montar um time igual depois, e nenhuma conseguiu.

Não era talento. Era que elas não tinham a estrutura do modelo. Tinham o resultado diante dos olhos e nenhuma ideia das decisões que produziam o resultado.

O que some quando o especialista explica

O filósofo Michael Polanyi resumiu o fenômeno numa frase, em 1966, no livro "A Dimensão Tácita": sabemos mais do que conseguimos dizer.

E dá para medir o tamanho do buraco. Em 2014, um estudo publicado na revista Academic Medicine gravou especialistas ensinando um procedimento técnico e comparou o que eles disseram com o que o procedimento realmente exigia. Os especialistas deixaram de fora 71% dos passos de conhecimento, 51% dos passos de ação e 73% dos passos de decisão. O mesmo estudo mostrou que perguntas dirigidas recuperavam boa parte do que tinha sumido.

Repare no desenho do prejuízo. O que menos some é o passo de ação, aquilo que dá para ver. O que mais some é a decisão, aquilo que só acontece por dentro.

Na prática, são três coisas que evaporam entre a cabeça de quem sabe e o ouvido de quem está aprendendo:

  • O critério: o motivo de ter sido ali e não aqui. É o "eu já olhei do lado de cá" do técnico. Nunca entra no manual, porque quem faz nem percebe que decidiu.
  • A decisão invisível: a bifurcação que a pessoa atravessou sem parar para pensar. Ela não lembra de ter escolhido, então não conta que escolheu.
  • O sinal que dispara: o detalhe do ambiente que acendeu a luz. Um barulho, uma palavra que o cliente usou, uma cor fora do lugar.

Foi exatamente isso que o Rodrigo encontrou. Nas palavras dele, pessoas que são realmente especialistas têm uma quantidade de critérios em cada processo muito maior.

O preço de deixar o processo na cabeça de uma pessoa só

Isso deixa de ser teoria de gestão quando a conta chega:

  • Você não consegue delegar, porque delegar sem critério é entregar o passo e cobrar o resultado.
  • O treinamento do novato leva meses e o resultado varia de pessoa para pessoa.
  • Quando o especialista sai de férias, a qualidade cai junto com ele.
  • Você refaz o trabalho dos outros e chama isso de ser exigente.
  • E a equipe desanima, porque ninguém acerta um alvo que nunca foi descrito.

Modelagem pega a estrutura de quem faz bem

Modelagem, na programação neurolinguística, é o processo de entender profundamente o que faz uma pessoa gerar um resultado específico e transformar isso em aprendizado vivo dentro de outra. Não é cópia. Cópia pega o gesto; modelagem pega a estrutura.

E funciona fora do consultório. Em 2021, uma revisão publicada no periódico BJS Open juntou doze estudos que compararam treinamentos montados a partir do mapa mental do especialista com o treinamento convencional. Quem aprendeu pelo mapa saiu na frente nas duas medidas avaliadas: conhecimento do procedimento e desempenho na prática.

Cinco princípios para começar:

  • Modele, não copie. Seu objetivo é fazer a pessoa tomar as mesmas decisões que você toma, do jeito dela, e não imitar você.
  • Pergunte como, e não por quê. Essa é uma regra dura do que eu ensino: a pergunta que abre estrutura é sempre de como ou de o que especificamente, as perguntas do metamodelo. O porquê convida a pessoa a inventar uma justificativa bonita; o como obriga ela a voltar na cena. O Rodrigo entrou por um "por que você colocou a mão ali", e deu certo porque o técnico respondeu com a cena em vez de responder com teoria. Quando vier teoria, troque a pergunta na hora.
  • Cace o critério, não a tarefa. "Confiro o orçamento" é tarefa. "Olho primeiro o item mais caro, porque é onde o erro dói" é critério. Só o segundo se ensina.
  • Escreva a decisão, não o passo. Um documento de processo que só lista ações produz gente que executa e não pensa. Escreva as bifurcações: quando é assim, faço isso; quando aparece aquilo, mudo.
  • Teste no mais novo. O mapa só está pronto quando quem nunca fez consegue chegar perto do resultado seguindo ele. Se não chegou, falta critério, e não esforço.

A modelagem é puramente estratégia.

Seu critério no papel

Ache um critério seu hoje

Escolha uma coisa que você faz bem e que ninguém na sua equipe faz do mesmo jeito. Fechar uma conversa de venda, revisar um pedido, decidir qual trabalho entra na frente. Pegue um momento só lá dentro, aquele instante em que você decidiu alguma coisa sem pensar, e responda por escrito uma pergunta: como especificamente eu soube que era ali? Se a resposta vier como "experiência" ou "intuição", faça a pergunta de novo em cima dela, até aparecer algo concreto.

Depois repare em duas coisas. A primeira é que o critério que você escreveu vai aparecer outras vezes no mesmo dia, e você vai enxergar ele funcionando. A segunda é mais desconfortável: você nunca tinha contado isso para ninguém da sua equipe. Não por má vontade. Porque você nem sabia que sabia.

Modelar pessoas é uma habilidade treinável. Os artigos de liderança mostram outros pedaços dela.

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Tire o processo da sua cabeça

Sua equipe não é lenta. Ela está tentando reproduzir um processo do qual só recebeu a parte visível.

Como padronizar o trabalho da equipe, então? Não começando pelo documento. Começando pelas perguntas que fazem o seu próprio processo aparecer, uma decisão de cada vez, até você conseguir contar o que antes só dava para fazer.

Pega a próxima tarefa que só você faz direito. Pergunta como. Escreve.

É trabalho, e é trabalho que ninguém faz por você. Mas é a diferença entre uma empresa que depende de uma pessoa e uma empresa que depende de um método.

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