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Como falar com filho que não obedece sem brigar

Por Victor Reis · 9 min de leitura

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Foto: Annushka Ahuja · Pexels

Aula 17, uns quarenta minutos dentro. Eu tinha acabado de escrever um padrão de linguagem no quadro e pedi uma coisa simples: monta aí uma frase que você vai usar hoje, em casa, com gente de verdade.

A sala ficou naquele silêncio de caderno aberto.

Aí uma mãe abriu o áudio e leu o que tinha escrito: "enquanto você sente o cheiro da sopa ficando pronta, você acaba sentindo vontade de tomar um banho quente para quando comer você estar mais aquecido e confortável".

Eu ri e falei o que me veio na hora: sua filha vai ultrapassar você rapidinho, viu. Ela vai passar você na linguagem.

Mais tarde, na mesma aula, outra mãe leu a dela: "filha, você já notou que quando você organizou seu quarto, ele ficou mais harmonioso e aconchegante para receber seus amigos e seu namorado?"

Aí eu não segurei: nossa, pegou valor, pegou crença, pegou tudo ali.

Repare numa coisa. Nenhuma das duas ficou mais autoritária. Nenhuma das duas levantou a voz. O que mudou foi a forma da frase. E é exatamente por isso que quem procura como falar com filho que não obedece quase sempre está procurando no lugar errado: o problema raramente é a sua autoridade, é o desenho do seu pedido.

Não é a criança que é teimosa. É o pedido que está mal montado.

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Como falar com filho que não obedece: tire o não da mesa

"Vai tomar banho" é uma frase com duas respostas possíveis: sim e não. E criança nenhuma no mundo escolhe a primeira por educação.

"Você vai tomar banho antes ou depois de jantar?" também é uma frase com duas respostas possíveis. Só que as duas são banho.

Na PNL esse padrão se chama utilização do "ou". Em sala eu explico assim: a gente está segmentando as escolhas para duas coisas apenas, e ela tem total poder de escolher tudo aquilo que você está mandando ela escolher.

As duas frases que nasceram na frente da turma

Volta nas duas frases da abertura e olha a engenharia delas.

A primeira amarra o banho a uma coisa que já estava acontecendo de qualquer jeito: o cheiro da sopa. Ninguém pediu nada. A frase só descreve uma cena e coloca o banho dentro dela, como se fosse parte do tempo passando.

A segunda é mais ousada. Ela não manda arrumar o quarto. Ela pergunta se a filha já notou uma coisa que, para existir, exige que o quarto tenha sido arrumado. E de quebra diz para que aquilo serve: receber gente, estar bem no próprio canto.

A primeira mexe com o corpo. A segunda mexe com o que a menina valoriza. Foi por isso que eu falei "pegou valor, pegou crença, pegou tudo ali": numa frase só, ela colocou o ambiente, o comportamento, o porquê daquilo importar e o que a filha ganha no fim.

Nenhuma das duas precisou da palavra "agora".

Marcelo, Juliana e a frase de sempre

Sete e meia da noite. Juliana fala da cozinha: "vai tomar banho". Silêncio. Dois minutos depois, mais alto: "eu já falei para ir tomar banho". Nada. Aí o Marcelo entra e resolve no volume.

O banho acontece. E todo mundo perde alguma coisa.

O que a Juliana conta depois é que o filho não a escuta. "Meu filho não me escuta" é, de longe, a frase que eu mais ouço de pai e mãe em sala. Só que o que aconteceu ali foi outra coisa: ela ofereceu, três vezes seguidas, a mesma escolha entre fazer e não fazer. E ofereceu de graça.

Por que a ordem direta não pega

Quando eu peço em sala para a pessoa contar como ela fala em casa, quase sempre cai num destes quatro:

  • A ordem seca. "Vai tomar banho." Carrega um sim e um não do mesmo tamanho, e quem decide qual dos dois vale é o outro, não você.
  • A repetição. A mesma ordem, mais alto, mais vezes. Ela ensina uma coisa só, e ensina muito bem: que as primeiras vezes não valiam.
  • A ameaça. "Se não tomar banho, não tem tela." Funciona hoje e encarece amanhã, porque o preço sobe toda vez e a obediência passa a depender de você estar por perto.
  • O sermão. Três minutos de explicação sobre higiene para alguém que parou de ouvir no segundo sete. Argumento comprido não convence criança, cansa.

Os quatro têm a mesma falha de projeto: deixam a porta do "não" escancarada e depois tentam empurrar a pessoa para longe dela. É a mesma falha em como pedir para o filho tomar banho sem brigar, em como fazer meu filho comer sem virar negociação de jantar, e na lição que nunca começa.

Isso não é manipular criança?

Essa pergunta aparece em toda turma, e sempre mais ou menos no mesmo minuto. Naquela aula uma aluna levantou a mão exatamente aí, meio desconfiada.

É a melhor pergunta do dia, e eu nunca fujo dela. Aliás, quando ninguém levanta, quem levanta sou eu: a linguagem ericksoniana é uma das piores coisas que você pode usar para manipular uma pessoa de forma negativa também. A estrutura é neutra. Ela obedece a quem está segurando.

O critério que eu uso é curto. Manipular é levar o outro a fazer o que é bom para você. Conduzir é levar o outro a fazer o que é melhor para ele, ou para os dois. Se não for bom para todos, não faz.

Aplica isso em casa e a conta fecha rápido. O banho é bom para quem? O jantar é bom para quem? A lição é boa para quem? Se a resposta sincera for "é bom para mim, porque eu quero paz", pare a frase no meio e resolva o problema certo, que é outro.

E tem um detalhe que desarma a objeção pelo outro lado. Num estudo publicado na revista Frontiers in Psychology em 2021, com 366 crianças em idade pré-escolar, pesquisadores testaram três comportamentos de pais que apoiam a autonomia do filho. Só um deles previu sozinho o desenvolvimento das funções executivas da criança, aquelas que sustentam foco e autocontrole: oferecer escolha.

Dar duas portas não rouba a autonomia do seu filho. É uma das poucas coisas que a constroem.

O preço de repetir a mesma ordem

Insistir parece de graça, e sai caro:

  • A psicóloga Grazyna Kochanska, num estudo publicado na revista Child Development em 1995, separou duas obediências que parecem iguais de fora. A comprometida, quando a criança abraça o pedido como se fosse dela. E a situacional, quando ela coopera, mas sem compromisso nenhum por dentro. Só a primeira apareceu ligada à internalização das regras. A outra dura enquanto o adulto está olhando.
  • Uma meta-análise publicada na revista PLOS ONE em 2018, que juntou 19 estudos, testou quatro coisas que pais fazem para conseguir obediência. O elogio pela obediência, sozinho, não aumentou a obediência de forma significativa. O que a gente acha que funciona e o que funciona nem sempre é a mesma coisa.
  • E tem o custo que não cabe em estudo nenhum: a casa vira um lugar onde as pessoas só se falam em tom de cobrança.

Quem repete ordem está comprando obediência situacional todo dia, no varejo, pagando com a própria voz.

Como lidar com filho que não obedece

  • Decida o destino antes de abrir a boca. Se você não sabe exatamente o que precisa acontecer, nenhuma frase bonita salva. Improviso com técnica de condução vira empurrão por acidente.
  • Ofereça duas portas que você aceitaria de verdade. "Antes ou depois do jantar" só funciona se as duas servem para você. Oferecer uma opção que você vai recusar depois é armadilha, e criança aprende armadilha muito rápido.
  • Diga o que vem depois, não o que você quer. "Quando o banho estiver tomado, a gente vê o resto do filme." O foco vai para a cena boa, e o banho entra como caminho, não como muro.
  • Costure o que ele ganha. Foi isso que fez a frase do quarto funcionar. Descreveu a cena, disse por que aquilo importava e nomeou o que a filha ganhava, tudo na mesma respiração.
  • Fale uma vez e cale. A frase precisa do silêncio depois dela para funcionar. Se você repete, você acabou de anunciar que a primeira não valia.

Se não for bom para todos, não faz.

Uma ordem, duas portas

Troque uma ordem por uma pergunta

Escolha uma ordem só, aquela que você repete todo dia e que sempre termina em bate-boca. Antes de falar, responda uma coisa para você mesmo: isso é bom para ele também? Se você hesitou, pare por aqui, porque o problema não é a frase. Se não hesitou, transforme a ordem numa pergunta com duas saídas, e as duas saídas precisam conter o que tem que acontecer. "Você prefere tomar banho antes ou depois do jantar?" Fale uma vez. E fique quieto.

O que vale reparar é o tempo entre a sua pergunta e o corpo dele se mexer. A porta que ele escolheu importa menos. Escolha grande trava e adia. Escolha pequena a criança toma na hora, muitas vezes resmungando, o que está ótimo. Se ele escolher e cumprir sem você precisar repetir, guarde essa frase inteira: ela virou a sua frase daquela hora do dia.

Toda terça tem aula ao vivo na Turma Avançada. Os resumos ficam abertos no Spotify

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Conduza o pedido, não a criança

A família de padrões de linguagem é bem maior que o "ou". Tem o tempo, tem a ordem dos acontecimentos, tem o pedido que não soa como ordem e tem a pergunta que já contém a decisão. Cada um deles é uma aula inteira, e não é nenhum deles que vai resolver o seu jantar de hoje.

O que resolve é mais simples. Você pode continuar gastando a sua voz numa frase que oferece o "não" de graça, ou gastar trinta segundos montando uma frase que não oferece. As duas mães da aula 17 fizeram isso num caderno, no meio de uma aula comum.

Se você chegou aqui procurando como falar com filho que não obedece, o começo não é técnica, é honestidade: pergunte se o que você está pedindo é bom para ele também. Depois disso a frase fica fácil. E se hoje o seu aperto é o tom e não a forma, veja também como chamar a atenção sem levantar a voz.

Uma frase bem montada dispensa a palavra "agora".

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